Não cedas do teu desejo


Não cedas do teu desejo

“Não cedas do teu desejo” não é um conselho gentil.

É uma ordem ética.

Em Jacques Lacan, essa frase não significa seguir caprichos, impulsos ou vontades imediatas. Significa não trair aquilo que te constitui, mesmo quando o mundo inteiro te empurra para a adaptação, a obediência e o silêncio.

Ceder é aceitar viver uma vida que não é tua.

É trocar o que te move por salário, aprovação, tranquilidade falsa ou medo de perder o lugar.

É trabalhar muito para não pensar.

É obedecer para não desejar.

No cotidiano de trabalho, ceder aparece disfarçado de “bom senso”, “profissionalismo” ou “maturidade”. Mas, muitas vezes, isso é apenas o nome elegante da renúncia subjetiva. O sujeito cede quando diz “sim” ao que o esvazia, quando aceita humilhações como normais, quando silencia o que o atravessa para não incomodar.

Lacan é brutal porque diz: ninguém sai ileso dessa traição.

Quem cede do desejo não ganha paz; ganha sintomas.

Ansiedade, cansaço crônico, ressentimento, cinismo, adoecimento. O corpo cobra o que a boca calou.

Não ceder do desejo não é gritar, bater na mesa ou romper tudo.

É sustentar um eixo interno, mesmo em silêncio.

É escolher com quem, como e até onde ir.

É trabalhar, sim — mas sem se tornar coisa.

É cumprir tarefas sem vender a alma nelas.

Desejo, aqui, é aquilo que te mantém vivo.

O que dá sentido ao esforço.

O que faz o dia valer mais do que apenas sobreviver até sexta-feira.

O capitalismo quer sujeitos cansados, ocupados, culpados e substituíveis.

“Não cedas do teu desejo” é um gesto de resistência íntima contra isso.

É dizer: minha vida não cabe inteira numa função.

No fim, a ética lacaniana não promete sucesso, reconhecimento ou segurança.

Ela promete algo mais raro: não se perder de si mesmo.

E isso, no mundo em que vivemos, é o ato mais radical possível.

***

Então vamos até o limite, sem conforto, sem moralismo, sem promessa de sucesso.

Não cedas do teu desejo — até o fim

Em Jacques Lacan, levar o “não cedas do teu desejo” ao extremo máximo significa aceitar uma verdade insuportável:

ninguém vem te salvar da tua própria traição.

No limite, ceder não é errar.

Ceder é viver uma vida que não é tua — e chamá-la de normal.

Levar esse conceito ao extremo é compreender que:

o sistema não precisa te destruir,

basta te convencer a desistir de ti mesmo em pequenas doses diárias.

O extremo do desejo não é felicidade.

É responsabilidade total.

Significa assumir que:

o emprego pode ir embora

o reconhecimento pode nunca vir

a solidão pode aumentar

a vida pode ficar mais dura

e, ainda assim, não trair o que te move.

No extremo, “não ceder do desejo” implica aceitar que não há garantia simbólica:

nenhuma instituição, nenhum chefe, nenhuma ideologia, nenhuma fé vai legitimar tua escolha.

Você sustenta sozinho.

Aqui o desejo deixa de ser romântico e vira trágico.

Ele exige que você atravesse o medo de perder tudo aquilo que te mantém adaptado.

O extremo é este:

prefiro falhar sendo sujeito do que vencer sendo objeto.

Não ceder do desejo, levado ao limite, é aceitar que:

talvez você seja visto como difícil

talvez te chamem de irresponsável

talvez te excluam

talvez você perca posições

Mas você não perde a si mesmo.

E Lacan é cruel porque afirma:

quem cede do desejo até pode sobreviver socialmente,

mas morre por dentro em parcelas.

No extremo, essa ética não promete sentido.

Ela promete algo mais radical:

não mentir para si mesmo.

E isso custa caro.

Mas o preço de não pagar é maior.

Frase final (extremo máximo)

“Melhor suportar o peso do desejo do que o vazio de ter vivido a vida de outro.”


Comentários