Foda-se a promessa
O capitalismo não se sustenta apenas por dinheiro, contratos ou leis. Ele se sustenta, sobretudo, por uma promessa: a de que o sacrifício de hoje será recompensado amanhã; a de que esforço, obediência e paciência produzirão sentido, reconhecimento e pertencimento. Essa promessa é o eixo invisível que mantém corpos em movimento mesmo quando tudo já dói. Dizer “foda-se a promessa” não é um gesto de revolta juvenil nem uma desistência amarga. É um corte ético.
A promessa opera como anestesia do presente. Ela desloca a vida para um futuro que nunca chega, transformando sofrimento em investimento e exaustão em virtude. Trabalha-se demais, aceita-se demais, cala-se demais — não porque se acredita plenamente, mas porque se espera. A promessa cria sujeitos endividados de esperança: sempre devendo mais um pouco de si ao amanhã.
O problema não é sonhar. O problema é quando o sonho se torna mecanismo de controle. Quando a promessa exige fé constante apesar das evidências. Quando ela sobrevive intacta à injustiça, ao acaso, à desigualdade estrutural. Nesse ponto, a promessa deixa de ser horizonte e vira chantagem: se você não chegou lá, a culpa é sua; se falhou, foi porque não acreditou o suficiente.
Dizer “foda-se a promessa” é retirar essa fé obrigatória. Não é negar o futuro, mas recusar que ele seja usado como desculpa para a violência do presente. É recusar a lógica segundo a qual a vida só vale como preparação para outra coisa. É afirmar que não há garantia, e que exatamente por isso o agora não pode ser tratado como lixo provisório.
Sem a promessa, o capitalismo perde seu combustível psíquico. Sem a promessa, o medo perde eficácia, a culpa perde função e o sucesso perde aura moral. O sujeito que não espera recompensa não é facilmente manipulável. Ele pode continuar trabalhando, cuidando, criando — mas já não confunde sobrevivência com redenção.
“Foda-se a promessa” não é cinismo. É lucidez sem anestesia. É escolher agir sem vender a própria vida como penhor. É sustentar o gesto sem exigir que o mundo o valide depois. É recusar a mentira confortável de que tudo fará sentido no final.
Talvez nada feche. Talvez nada compense. Talvez não haja narrativa que salve. E ainda assim, viver sem promessa pode ser o primeiro ato verdadeiramente livre: estar no mundo sem crédito metafísico, sem fiador histórico, sem garantia moral. Apenas atravessar — e não dever nada a ninguém por isso.
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