Adeus a Lacan


Adeus a Lacan

Adeus, Lacan.

Não porque você acabou,

mas porque não posso mais me apoiar no seu nome.

Você me ensinou a desconfiar do sentido,

a ouvir o que tropeça,

a não ceder — não ao desejo —

mas à tentação de explicar demais.

Por isso, fico sem você.

Não te levo como bandeira,

não te uso como senha,

não te invoco para ganhar debate.

O que levo é o incômodo.

O corte que não fecha.

A vergonha de falar em excesso.

Você me ensinou que o Outro não existe —

então não te faço Outro.

Adeus não é ruptura.

É responsabilidade.

Agora, quando eu falar,

não será “como Lacan dizia”,

mas em meu próprio risco.

Se eu errar, o erro é meu.

Se algo funcionar, não é milagre —

é trabalho.

Adeus, Lacan.

Obrigado por não garantir nada.

— E por isso mesmo,

por ter sido necessário.


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