Abandonar Lacan

 Abandonar Lacan

Abandonar Lacan não é um gesto de ignorância, nem uma recusa da psicanálise. É um gesto ético de saturação. Chega um ponto em que o pensamento, em vez de abrir o mundo, começa a interpor-se entre a vida e a experiência. Nesse ponto, insistir na teoria já não é rigor: é defesa.

Lacan ensinou que não há garantia, que o sentido falha, que o desejo não se fecha. Mas há um risco pouco comentado: transformar essa lucidez em identidade intelectual, em posição confortável diante do caos. Quando cada afeto vira conceito, cada dor vira estrutura e cada gesto vira sintoma, a vida deixa de ser atravessada e passa a ser administrada.

Abandonar Lacan é reconhecer que a teoria, quando permanece tempo demais, começa a funcionar como promessa — justamente aquilo que ela denunciava. Promessa de controle, de leitura correta, de não se perder. Só que a vida não pede leitura correta. A vida pede presença, erro, repetição, cuidado. Pede tempo gasto, não interpretado.

Há um momento em que compreender não ajuda mais. O sofrimento já foi nomeado, o impasse já foi descrito, a falta já foi reconhecida — e nada disso faz o dia avançar. A louça continua suja, o corpo continua cansado, o outro continua ali, esperando algo que não é conceito. Abandonar Lacan é aceitar que saber não substitui ficar.

Esse abandono não é destruição da teoria, mas sua colocação no lugar certo: o de ferramenta, não de morada. Pensar serve para atravessar certos pontos; depois disso, insistir é recusar o risco do viver sem apoio. A teoria vira escudo contra o real, quando deveria ser apenas um mapa provisório.

Abandonar Lacan, no fim, é um gesto simples e difícil: parar de perguntar “o que isso significa?” e começar a responder “o que isso exige de mim agora?”. É sair do lugar do intérprete e aceitar o lugar do vivente. Sem garantia, sem fiador simbólico, sem a proteção de um mestre.

Não se trata de anti-intelectualismo. Trata-se de limite. Há coisas que só se resolvem no tempo, no corpo, no vínculo. E há dias em que a decisão mais radical não é interpretar o mundo, mas lavar um copo, voltar para casa e ficar com quem se ama.

Abandonar Lacan é isso:

não negar a falta,

mas parar de explicá-la —

e continuar vivendo mesmo assim.

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