Persona (1966), de Ingmar Bergman, é talvez o filme que mais radicalmente encena, no cinema, aquilo que Lacan chamou de falha constitutiva do sujeito. Não se trata de um drama psicológico, nem de um estudo sobre dupla personalidade, mas de uma experiência clínica sem analista, onde o espectador é colocado na posição de quem assiste à desmontagem do eu enquanto ficção simbólica. Bergman não narra uma crise: ele expõe o ponto em que a linguagem falha e o sujeito cai no Real.
Elisabet Vogler não perde a fala; ela abandona a fala. Seu silêncio não é sintoma histérico, é ato. Em termos lacanianos, é a recusa do sujeito em continuar a se deixar representar por significantes que já não garantem sentido algum. A atriz, cuja função é falar textos escritos por outros, percebe que toda palavra é semblante e que toda identidade é uma encenação sustentada pelo Outro. O silêncio de Elisabet é, portanto, um gesto ético radical: ela se retira do campo simbólico, recusa a troca significante e abandona o pacto que mantém o eu funcionando.
Esse ato, no entanto, não produz libertação; produz devastação. Porque o sujeito não pode existir fora da linguagem sem pagar um preço insuportável. Ao calar-se, Elisabet se torna o Outro absoluto, aquele que olha, mas não responde. E é nesse ponto que Alma entra em colapso. Alma fala porque o Outro não fala. Ela ocupa compulsivamente o lugar da palavra, do sentido, da confissão, acreditando que, se falar o suficiente, algo se estabilizará. Mas o que ocorre é o oposto: quanto mais Alma fala, mais o eu se desfaz.
A famosa cena do relato sexual na praia é central porque ali Alma atravessa o limite da fala socialmente aceitável. Ela diz demais. Ela goza na linguagem. E o problema não é o conteúdo do relato, mas a ausência de retorno simbólico. Elisabet escuta sem responder. Não há interpretação, não há julgamento, não há significante que feche a cadeia. Lacan diria: Alma fala diante de um Outro barrado que não garante o sentido. O resultado é angústia pura.
O ponto mais traumático do filme não é o sexo, nem o silêncio, nem a loucura: é a maternidade. Quando surge a questão do filho rejeitado, do aborto desejado, do ódio silencioso ao laço absoluto que a criança representa, o filme toca o Real sem mediação. O filho aparece como aquilo que não pode ser simbolizado: nem objeto de amor, nem simples rejeição, mas resto irredutível do desejo. Bergman repete a cena, filma-a duas vezes, porque o trauma não se inscreve uma única vez. Ele retorna. Ele insiste. Ele não se resolve.
A fusão dos rostos — imagem icônica de Persona — não é metáfora poética, mas formulação visual do colapso do eu. Ali, Bergman mostra que o sujeito não é uma substância, mas um efeito de linguagem. Quando o Outro se torna opaco demais, quando o espelho simbólico falha, o eu se dissolve. Não há identidade autêntica por trás da máscara; há apenas outra máscara, e depois outra, até que reste o vazio.
É por isso que Persona é profundamente lacaniano: ele mostra que o eu é uma ficção necessária, mas frágil; que o desejo do Outro é indecifrável; e que o silêncio não revela a verdade — ele revela o buraco. O filme não oferece cura, reconciliação ou síntese. Ao final, a linguagem retorna, a filmagem termina, o cinema se desmonta, mas nada foi resolvido. O sujeito continua dividido.
Em Persona, Bergman antecipa Lacan em sua formulação mais cruel: não há relação plena com o Outro, não há palavra última, não há identidade estável. O que resta é o semblante que funciona ou o silêncio que destrói. E entre um e outro, o sujeito paga com angústia o preço de existir.
Se Persona ainda é insuportável hoje, é porque ele mostra algo que o cinema raramente ousa mostrar: não o drama do indivíduo, mas o ponto em que o sujeito desaparece — e a linguagem revela que sempre chegou tarde demais.
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