O silêncio impossível: uma leitura lacaniana de Wittgenstein
A célebre frase final do Tractatus Logico-Philosophicus — “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar” — é, sem dúvida, um dos gestos mais radicais da filosofia do século XX. Nela, Wittgenstein traça uma fronteira rigorosa entre o dizível e o indizível, encerrando a filosofia no esclarecimento lógico da linguagem e expulsando para o silêncio tudo aquilo que concerne ao valor, à ética, ao sentido da vida e ao absoluto. No entanto, do ponto de vista lacaniano, esse gesto extremo revela não apenas uma lucidez sobre os limites da linguagem, mas também um impasse estrutural: aquilo que não pode ser dito não se deixa calar.
Para Lacan, a linguagem não é um instrumento transparente de descrição do mundo, mas o próprio meio no qual o sujeito se constitui. O sujeito não preexiste à linguagem; ele é um efeito dela. Assim, quando Wittgenstein propõe o silêncio diante do indizível, ele supõe implicitamente um sujeito capaz de se retirar da linguagem, de suspender a fala e de permanecer intacto diante do que escapa à proposição lógica. É precisamente essa suposição que a psicanálise torna insustentável. Para Lacan, não há exterioridade pura à linguagem: o indizível retorna como sintoma, ato falho, repetição, gozo.
O que Wittgenstein chama de “aquilo de que não se pode falar” aproxima-se do que Lacan nomeia como o Real. Contudo, enquanto Wittgenstein prescreve o silêncio como resposta ética e metodológica ao Real, Lacan afirma o contrário: o Real é aquilo que não cessa de não se escrever, mas que insiste, retorna e perturba toda tentativa de fechamento do sentido. O Real não é um domínio respeitável que exige silêncio; ele é uma falha estrutural que faz falar demais.
Nesse ponto, a frase wittgensteiniana revela seu caráter paradoxal. Ao ordenar o silêncio, ela já fala em nome do indizível. Ela transforma o limite da linguagem em uma norma, em um mandamento. Do ponto de vista lacaniano, esse mandamento funciona como um supereu filosófico: “não fales onde não deves”. Mas o supereu, como Lacan insiste, não produz apaziguamento — ele produz gozo. O silêncio exigido por Wittgenstein não elimina o excesso; ele o intensifica. O que não pode ser simbolizado retorna sob a forma de angústia.
Além disso, a psicanálise questiona a própria ideia de que ética e sentido estejam “fora” da linguagem. Para Lacan, não existe ética do silêncio, mas uma ética do bem-dizer. A ética da psicanálise não consiste em calar diante do indizível, mas em não ceder quanto ao desejo, mesmo sabendo que ele nunca poderá ser plenamente dito. Falar, aqui, não é comunicar um conteúdo verdadeiro, mas sustentar a falta que estrutura o sujeito. O silêncio absoluto não é ético; ele é fantasmático.
Enquanto Wittgenstein busca proteger a linguagem de seu uso indevido, Lacan parte da constatação de que não há uso correto da linguagem que nos salve do mal-entendido. O inconsciente é estruturado como uma linguagem, mas uma linguagem que falha, que desliza, que trai o falante. Onde Wittgenstein vê o fim legítimo da filosofia, Lacan vê o início da experiência analítica: justamente ali onde a linguagem tropeça, onde o sentido se desfaz, onde falar se torna impossível — e, por isso mesmo, necessário.
Assim, a frase mais radical de Wittgenstein encontra seu limite na própria radicalidade. Ao propor o silêncio diante do indizível, ela tenta preservar a pureza da linguagem ao custo de expulsar o sujeito. Lacan, ao contrário, aceita a impureza como condição estrutural: não se trata de calar sobre o impossível, mas de falar a partir dele, sabendo que toda fala será insuficiente, falha e atravessada pelo desejo.
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