O equívoco da finitude: uma crítica lacaniana ao ser-para-a-morte de Heidegger
O conceito heideggeriano de ser-para-a-morte constitui um dos gestos mais decisivos da filosofia do século XX. Ao afirmar que a morte é a possibilidade mais própria, irredutível e intransferível do Dasein, Heidegger desloca a metafísica clássica e funda uma ontologia da finitude. No entanto, do ponto de vista lacaniano, esse gesto radical permanece preso a uma ilusão fundamental: a de que o sujeito pode fundar sua verdade última na antecipação da morte. É precisamente essa suposição que a psicanálise torna insustentável.
Para Lacan, o sujeito não se constitui a partir do tempo nem da finitude biológica, mas a partir da entrada na linguagem. O sujeito é um efeito do significante, e essa operação inaugural já implica uma perda irrecuperável. Antes mesmo de saber que vai morrer, o sujeito já está dividido. A falta não surge no horizonte final da existência; ela é estrutural e inaugural. Nesse sentido, a morte não pode ocupar, em Lacan, o lugar ontológico fundamental que ocupa em Heidegger.
O ser-para-a-morte ainda supõe uma relação possível com o impossível. Mesmo que Heidegger insista que a morte não é um evento representável, ela permanece antecipável, tematizável e apropriável como horizonte de autenticidade. A morte, assim, continua a funcionar como um princípio de sentido. Para Lacan, porém, aquilo que pode ser assumido, antecipado ou apropriado não é o Real. O Real não se deixa integrar a uma narrativa existencial, nem mesmo sob a forma da finitude. Ele se impõe como falha, como ruptura, como aquilo que não pode ser metabolizado pelo sentido.
A crítica lacaniana atinge seu ponto decisivo quando se percebe que a morte, em Heidegger, opera como uma sutura ontológica. Ela confere unidade ao sujeito ao final do percurso existencial, permitindo a ilusão de uma existência própria, resoluta, autêntica. Lacan desmonta essa possibilidade ao afirmar que não há unidade subjetiva a ser recuperada. O sujeito do inconsciente é estruturalmente barrado; ele não coincide consigo mesmo em nenhum momento, nem no fim da vida. Não existe apropriação possível do ser, apenas modos singulares de lidar com a divisão.
Além disso, a centralidade da morte em Heidegger obscurece aquilo que, para Lacan, é o verdadeiro impossível: não a morte, mas a relação sexual. A impossibilidade fundamental não é morrer — todos morrem —, mas fazer Um com o Outro, alcançar uma complementaridade plena, fechar o circuito do sentido. Essa impossibilidade não se situa no futuro; ela opera no presente, no desejo, no gozo, na repetição sintomática. A angústia não nasce da antecipação da morte, mas da opacidade do desejo do Outro.
Nesse ponto, o ser-para-a-morte revela seu limite: ele ainda pertence a uma ontologia do sentido. Ao organizar a existência em torno da morte, Heidegger oferece ao sujeito um eixo de orientação, ainda que trágico. Lacan, ao contrário, retira esse eixo. Não há garantia ontológica, não há autenticidade a conquistar, não há relação “própria” com o Real. O que existe é a insistência da falta e a exigência ética de não ceder do desejo, mesmo sabendo que ele não conduz a nenhuma reconciliação final.
Assim, a crítica lacaniana ao ser-para-a-morte não é um simples desacordo conceitual, mas uma ruptura de regime. Heidegger ainda pensa o sujeito como capaz de se fundar a partir de uma possibilidade-limite. Lacan mostra que o sujeito já nasce desfundado, já atravessado por uma perda que não se resolve nem com a vida autêntica, nem com a morte assumida.
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