Manderlay: a violência do Bem e o fracasso do desejo

 Manderlay: a violência do Bem e o fracasso do desejo


Manderlay, de Lars von Trier, é um dos raros filmes contemporâneos que não apenas representa um conflito político, mas produz uma experiência ética, no sentido lacaniano do termo. O filme não se organiza em torno da denúncia da escravidão — tarefa já simbolicamente estabilizada —, mas em torno de uma pergunta muito mais insuportável: o que acontece quando o sujeito é confrontado com a liberdade sem desejar? É nesse ponto que Manderlay se torna radical: ele expõe o colapso do sujeito moderno diante da ausência de um Outro consistente.

Do ponto de vista lacaniano, a plantação de Manderlay não é apenas um espaço histórico, mas uma estrutura simbólica. A chamada “Lei de Mam” funciona como um Nome-do-Pai perverso: arbitrário, violento, injusto — mas eficaz. Ela organiza os lugares, distribui as funções, regula o gozo e, sobretudo, localiza a culpa. Enquanto essa lei vigora, há sofrimento, mas também há sentido. A morte de Mam não representa, portanto, uma libertação, mas um furo no simbólico, um momento em que o sujeito é lançado diretamente ao Real.

É nesse vazio que surge Grace. Ela encarna o que Lacan identifica como o supereu moderno, aquele que não ordena mais “não gozarás”, mas “goza sendo livre, igual, autônomo”. Grace não opera a partir do desejo, mas da convicção moral. Seu projeto de emancipação ignora aquilo que Lacan afirma repetidamente: não há sujeito sem alienação, não há desejo sem lei, não há liberdade sem perda. Ao impor a liberdade como um ideal universal, Grace reproduz a forma mais cruel de violência: aquela que se exerce em nome do Bem.

A experiência democrática implantada em Manderlay fracassa porque ela não cria sujeitos desejantes, apenas indivíduos desamparados diante da responsabilidade. A queda da Lei não produz emancipação, mas angústia. E, como Lacan nos ensina, diante da angústia o sujeito tende a restaurar o gozo sob formas ainda mais violentas. Assim, o chicote retorna — agora sem senhor, sem lei explícita, sem transcendência. A violência deixa de ser vertical e se torna difusa, horizontal, paranoica. Não há mais um Outro a quem endereçar a culpa; todos se vigiam, todos punem, todos gozam.

O ponto mais perturbador do filme — e seu verdadeiro núcleo lacaniano — é a revelação de que a escravidão era sustentada, em grande parte, pela cumplicidade ativa dos próprios escravizados. Essa revelação não deve ser lida como acusação moral, mas como constatação estrutural: o sujeito participa daquilo que o oprime porque ali encontra uma organização de gozo. Lacan é categórico ao afirmar que não somos apenas vítimas da lei; somos também seus beneficiários inconscientes. Manderlay ousa mostrar isso sem mediação, sem pedagogia, sem redenção.

O gesto final de Grace — ao aceitar o chicoteamento e abandonar a plantação — sela sua transformação subjetiva. Ao punir, ela deixa de ser libertadora e assume plenamente o lugar do senhor. Aqui, o filme atinge sua radicalidade máxima: não existe posição ética pura. A tentativa de escapar da violência pela moral resulta em uma violência ainda mais sofisticada, pois ela se recusa a se reconhecer como tal. Grace fracassa porque nunca abriu mão de seu lugar de saber; ela nunca aceitou não saber o que fazer com o desejo do Outro.

Em termos lacanianos, Manderlay é um filme sobre o fracasso do discurso universitário e do discurso do mestre moderno. Ele demonstra que a emancipação, quando não passa pela travessia do fantasma, transforma-se em gestão do gozo alheio. A liberdade, sem desejo, não liberta — ela expõe o sujeito ao Real sem amparo.

Assim, Manderlay não é um filme sobre escravidão, mas sobre a impossibilidade de uma libertação garantida. Ele nos confronta com a verdade mais incômoda da psicanálise: não existe Bem que não exija uma perda, e toda política que ignora isso está condenada a reproduzir aquilo que pretende combater.

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