A Paixão de Cristo

 A Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson, não é um filme religioso no sentido teológico; é um dispositivo de gozo. Sua radicalidade não está na fé, mas na exploração obsessiva do sofrimento como espetáculo. Visto lacanianamente, o filme não conduz ao mistério da redenção, mas àquilo que Lacan chama de Real do gozo — um ponto em que a dor deixa de significar e passa a ser consumida.

Desde o início, Gibson faz uma escolha decisiva: retirar a Palavra e inflar o corpo. O Cristo que fala pouco e sofre muito não é o Cristo do Logos, mas o Cristo reduzido a carne. Isso é fundamental. Para Lacan, o sujeito só existe enquanto efeito da linguagem. Ao esvaziar a palavra de Cristo e saturar a imagem de violência, o filme desloca o centro do cristianismo do simbólico para o real cru da carne dilacerada. O resultado não é elevação espiritual, mas fascínio hipnótico pelo corpo que aguenta tudo.

A flagelação interminável é o núcleo do filme. Ali, o sofrimento deixa de ser meio e se torna fim. Não há narrativa, não há tempo simbólico, apenas repetição. Essa repetição é típica do gozo traumático: não conduz a sentido algum, apenas insiste. O espectador não é convidado a compreender, mas a suportar — e, secretamente, a gozar. O filme não pergunta “por que ele sofre?”, mas “quanto ele ainda aguenta?”. Isso é obsceno no sentido lacaniano: aquilo que invade o campo do olhar sem mediação simbólica.

Em Lacan, o cristianismo é ambíguo: ele introduz a culpa, mas também tenta dar forma ao impossível do sofrimento. O problema de A Paixão de Cristo é que ele retira a mediação. A cruz não é mais signo, é instrumento. O martírio não aponta para a salvação; ele se fecha sobre si mesmo como circuito pulsional. O Cristo de Gibson não é o portador do desejo do Outro; ele é o objeto a, o corpo oferecido ao olhar, ao sadismo sublimado do espectador.

Há ainda um ponto ainda mais radical: o filme exige identificação total com a vítima. Mas, em Lacan, a identificação plena é sempre suspeita. Identificar-se totalmente com o sofredor absoluto produz uma economia perversa: o espectador se absolve. Toda a culpa é projetada nos algozes, enquanto o sujeito se coloca do lado do Bem absoluto. Essa operação impede qualquer travessia ética. Não há pergunta sobre o próprio desejo; há apenas a certeza narcísica de estar do “lado certo”.

Nesse sentido, A Paixão de Cristo não conduz à fé, mas à religião do sofrimento. Uma religião em que quanto mais se sofre, mais se tem razão. Isso é perigosamente próximo do que Lacan denunciava: a transformação do sacrifício em valor em si. Quando o sofrimento vira prova de verdade, a violência se justifica sozinha. O filme não questiona o sacrifício; ele o idolatra.

O paradoxo final é cruel: ao tentar glorificar Cristo, o filme o reduz. Reduz Cristo a corpo torturado, reduz a cruz a instrumento de choque, reduz o espectador a olho que consome dor. Onde o cristianismo propunha um escândalo simbólico — Deus feito homem — Gibson entrega um excesso de Real que sufoca qualquer pensamento.

Em termos lacanianos, A Paixão de Cristo fracassa justamente onde pretende triunfar. Ao invés de abrir espaço para o mistério, ele fecha tudo no gozo. Ao invés de convocar o sujeito, ele o anestesia. O resultado não é conversão, mas saturação. Não é fé, mas fascínio.

Por isso, a crítica mais radical é esta: o filme não é cristão demais, é pouco cristão. Ele troca o Logos pelo choque, a palavra pela carne, o desejo pela dor. E ao fazer isso, revela algo incômodo: quando a religião perde o simbólico, ela não eleva — ela goza.

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