A lição extremamente radical de Alain Badiou pode ser formulada sem rodeios:
não é a vida, nem a experiência, nem o consenso que produzem verdade —
a verdade nasce de um acontecimento que rompe a ordem do mundo,
e exige fidelidade, não adaptação.
Tudo em Badiou gira em torno dessa ruptura.
Badiou parte de uma decisão ontológica escandalosa: o ser é múltiplo, puro múltiplo sem Um. Não existe fundamento último, harmonia natural, totalidade reconciliável. O mundo não é um organismo; é uma contagem, uma organização provisória do múltiplo. A política, a arte, a ciência e o amor só se tornam verdadeiros quando algo acontece que não estava previsto pelas regras da situação. Esse algo é o Acontecimento. Ele não se deduz, não se explica, não se justifica. Ele irrompe.
A radicalidade está aqui: o acontecimento não tem garantia ontológica. Nada assegura que ele “valha a pena”. Ele só existe se alguém lhe for fiel. Não há critério externo, não há autoridade, não há saber prévio que diga: “isso é verdadeiro”. A verdade, em Badiou, não é adequação ao real, mas processo de fidelidade a algo que apareceu sem direito de aparecer.
Essa posição é brutal porque destrói duas ilusões modernas ao mesmo tempo. Primeiro, a ilusão humanista: não é o sujeito psicológico, biográfico ou identitário que funda a verdade. O sujeito é um efeito do processo de verdade. Ele surge depois, como consequência da decisão de manter-se fiel ao acontecimento. Segundo, a ilusão democrática-consensual: a verdade não nasce do diálogo, da maioria ou da negociação. Ela é minoritária, solitária e frequentemente ilegível no início.
Badiou afirma que existem apenas quatro procedimentos de verdade: ciência, arte, política e amor. Fora disso, só há opinião, gestão, sobrevivência. Isso é radical porque exclui quase tudo aquilo que hoje se apresenta como “sentido da vida”: sucesso, bem-estar, identidade, reconhecimento, adaptação. Nada disso produz verdade. No máximo, produz circulação de mercadorias simbólicas.
Na política, a lição é especialmente dura: não existe política verdadeira sem igualdade radical. Igualdade não como objetivo futuro, mas como axioma presente. Quando a política se reduz à administração, à representação ou à gestão da diversidade, ela abandona a verdade e entra no campo do Estado. A política, para Badiou, só começa quando alguém afirma: todos contam por um, mesmo que o mundo inteiro diga o contrário.
No amor, a radicalidade é ainda mais desconfortável: amar não é fusão, nem complemento, nem felicidade. Amar é ver o mundo a partir de Dois, sustentar a diferença como princípio. O amor é um procedimento de verdade porque ele reorganiza o mundo a partir de um encontro contingente que poderia não ter acontecido. Permanecer fiel a esse encontro é resistir à lógica do consumo, da troca rápida, da substituição infinita.
Na arte, a verdade não está na expressão do eu nem na comunicação de mensagens, mas na invenção de formas que reconfiguram o sensível. A arte verdadeira não representa o mundo; ela cria um mundo que antes não existia. E, como toda verdade, ela é inicialmente ilegível, excessiva, escandalosa.
Contra o relativismo contemporâneo, Badiou afirma algo quase proibido de dizer: existem verdades universais. Elas não são eternas nem dadas por Deus, mas valem para todos uma vez que acontecem. A universalidade não vem do consenso, mas da possibilidade de qualquer um tornar-se sujeito de uma verdade, se aceitar a fidelidade que ela exige.
Talvez a lição mais extrema de Badiou seja esta:
uma vida sem verdade pode ser confortável, ética, tolerante e longa —
mas é uma vida sem acontecimento, portanto, sem sentido.
Badiou nos obriga a escolher entre duas posições inconciliáveis:
ou viver bem adaptado a um mundo que já está aí,
ou arriscar-se a uma verdade que não oferece garantias, recompensas nem proteção.
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