Capela Sistina

 Capela Sistina


Deus toca o homem. Ou quase. Não se sabe.

O dedo para a um nada do encontro.

No alto, a carne espera pelo ponto;

embaixo, alguém espera — e não há chave.


Adão respira. A eternidade cabe

num gesto interrompido. O céu, desconto

de uma promessa. E nós, sem outro conto,

ficamos onde a mão jamais nos cabe.


Michelangelo — silêncio sobre a tinta.

O homem nasce e já perdeu o prazo.

Deus se afasta. Ou talvez nunca tenha vindo.


Restam dois dedos, quase, e a pergunta extinta:

se tudo começa aqui, por que o acaso

continua, indiferente, prosseguindo?


A.C.

2026

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