As Meninas

 As Meninas


No fundo, um espelho guarda dois olhares,

e a Infanta, entre sombras, permanece;

Velázquez, diante da tela, aparece,

pintando reis que olham nossos ares.


Quem vê? Quem é visto? Em quais lugares

o olhar começa e onde desaparece?

A própria cena em silêncio se oferece,

mas nos devolve a dúvida dos olhares.


Talvez o quadro seja o nosso rosto,

talvez sejamos nós dentro da sala,

presos ao gesto que o pintor compôs.


E quando enfim buscamos nosso posto,

descobrimos: ninguém ali nos fala —

porque o pintor pintou também nós.


A.C.

2026

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