Soneto de um Dia Comum

 Soneto de um Dia Comum


Acordo; o mundo cabe no jornal,

Em tinta fria a dor se faz notícia;

Um rosto morre, e o gesto editorial

Converte a vida em breve estatística.


Vitórias vêm de um campo irreal,

Que a multidão celebra sem perícia;

Enquanto o tempo, em passo desigual,

Reveste o espanto com a sua carícia.


Desço a escada, o café, o ônibus, a rua;

No hábito também se esconde o abismo,

E o sonho abre uma porta que flutua.


Contam-se os vazios com exatidão,

Mas só desperta, além do automatismo,

Quem vê num dia comum a criação.


A.C.

2026

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