O Nariz do Abismo

 O Nariz do Abismo


No rosto do mundo, um espelho sem dono,

ergue-se a carne em cômica sentença;

um monte de silêncio, riso e abandono,

onde a vaidade encontra a própria doença.


Nariz — torre erguida contra o sono,

farol da inútil humana aparência;

por ele passa o orgulho em seu trono,

e cai no pó da última evidência.


Bocage viu no traço desmedido

o homem inteiro, ridículo e ferido,

tentando ser deus sobre a própria argila.


Mas esse nariz que o tempo não consome

é o próprio universo chamando o homem:

“és grande porque ris da tua ruína.”


A.C.

2026

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