Deus nunca leu O Capital
No alto do céu, com tédio soberano,
Deus folheia estrelas, não folheia Marx;
criou o lucro, a fome e o cotidiano,
mas nunca examinou seus próprios atos.
Fez reis, mercados, templos de engano,
deu ao homem a cruz, deu-lhe contratos;
e quando ouviu falar do proletário humano,
disse: “Não contemplei esses extratos”.
Um anjo então abriu O Capital,
mostrou-lhe o valor, a mercadoria,
a fábrica, o suor, o capital.
Deus riu: “Isso explica a agonia,
mas eu fiz o mundo assim, afinal;
quem dera eu tivesse lido algum dia.”
A.C.
2026
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