A CRUZ VAZIA
Deus desce ao pó, abandona o infinito,
e no madeiro perde o trono e a voz;
o céu se cala, o universo aflito,
ouve o abandono ecoar dentro de nós.
Não há um rei distante, absoluto,
nem mão que mova o mundo sem chamar;
na chaga aberta, no silêncio bruto,
nasce a coragem de ter que criar.
O Deus que morre quebra a antiga lei,
deixa o homem diante do seu caminho;
não há mais fuga ao peso que herdei,
nem salvação sem atravessar sozinho.
E a cruz revela, em seu mistério fundo:
Deus se entrega — e entrega-nos o mundo.
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