Traição
Não veio com grito — veio mansa,
como quem pede licença à confiança,
sentou-se à mesa, bebeu do meu vinho
e aprendeu o mapa exato do meu caminho.
Tinha mãos limpas, palavra macia,
olhos que prometiam uma geometria
onde tudo fechava — perfeito, exato —
até o instante mínimo do ato.
A traição não rompe — ela infiltra,
escorre no gesto, na pausa, na letra,
é um silêncio mal posto entre duas frases,
um “depois eu te conto” que nunca se faz.
E quando se revela, não é tempestade,
é só uma verdade sem maquiagem:
o outro já era outro há muito tempo,
e eu conversava com o próprio vento.
Há algo de frio, quase elegante,
na forma discreta com que é constante —
não pede perdão, não volta atrás,
apenas reescreve o que já não faz.
E fica um resto, difícil de nomear:
não é só dor — é desaprender a confiar,
é olhar o mundo com menos abrigo
e descobrir que o corte veio do amigo.
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