Santuário de Zé Pelintra e Maria Navalha

 Santuário de Zé Pelintra e Maria Navalha


Na curva da noite onde a cidade vacila,

sob o arco gasto da velha Arcos da Lapa,

acende-se um fogo que não pede licença:

é fé de rua, cigarro e paciência.


Ali mora Zé Pelintra de terno alinhado,

sapato gasto, sorriso enviesado,

rei das esquinas, doutor do improviso,

que transforma o tropeço em aviso.


E ao lado dele, cortando o ar como lâmina viva,

dança Maria Navalha, altiva—

seu riso é faca, seu passo é destino,

mulher que conhece o abismo e o ensino.


Velas tremulam como quem conta segredo,

copos de cachaça enfrentam o medo,

flores murchando ainda dizem: “resiste”,

porque até o que cai, ali, ainda existe.


Não há silêncio — só um rumor antigo:

de passos perdidos buscando abrigo,

de almas que chegam sem nome ou certeza

e saem vestidas de alguma leveza.


Nesse santuário que não tem parede,

a fé não se fecha, a dor não se mede,

e entre o sagrado e o barulho da rua

Deus veste branco — e a noite continua.

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