Ezra Pound, Dorothy Shakespear e Olga Rudge
(canto fragmentado, à maneira dos Cantos)
I
Com Ezra Pound em pedra e sal,
sob o peso de Primeira Guerra Mundial ainda ecoando nos ossos da Europa,
e a língua — lâmina — cortando o tempo:
“Make it new”
mas o novo é sempre resto,
ruína reorganizada em música breve.
II
Dorothy Shakespear,
linha contínua,
fio que não se rompe —
na casa, na carta, no cuidado,
no gesto que não pede retorno.
Penélope sem epopeia,
tecendo o homem que se desfaz.
III
E Olga Rudge,
arco tenso sobre o silêncio,
nota que vibra no interdito —
Veneza, água e eco,
o corpo inclinado ao som
como quem sabe:
o amor não é casa,
é intervalo.
IV
Entre duas margens,
o poeta:
não Ulisses,
mas o mar.
Divide-se —
não por escolha,
mas por excesso de voz.
V
Sigismondo grita em pedra (Malatesta!),
Confúcio murmura ordem no caos,
e o ouro — sempre o ouro —
circula como culpa.
Mas nenhuma economia resolve
o cálculo do desejo.
VI
Dorothy sustém o nome.
Olga sustém o sopro.
E ele —
entre nome e sopro —
perde a fala.
VII
No fim,
Veneza devolve tudo à água.
Nenhuma escolha.
Nenhuma síntese.
Só o eco de três destinos
num corpo que já não responde.
VIII
E o canto cessa
não por conclusão,
mas por falha —
como se o poema soubesse
antes do homem:
que amar dois é
não caber em um.
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