Desejo
Nasci depois de mim. Não houve entrada.
Só um rumor de ossos e ferrugem,
uma voz mastigando a própria fuligem
na boca escura da manhã cansada.
Desejar? Talvez. A fome sem estrada,
o pé que vai apodrecendo em viagem,
um corpo preso à sua engrenagem
girando no vazio e contra o nada.
Procuro o quê? Não sei. Mas continua.
Algo insiste entre dentes, lama e tosse,
um resto sem razão, sem luz, sem nome.
E sigo. Porque parar talvez destrua
essa ruína que ainda se compõe
do velho movimento da fome.
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