Samuel Beckett

 Samuel Beckett


Nada começa.

Nada termina.

Algo insiste.

Um corpo fala

porque ainda respira.

Respira

porque ainda não cessou.

As palavras saem

como restos,

não para dizer,

mas para ocupar o silêncio

que não se fecha.

Esperar não adianta.

Mover-se não resolve.

Calar também não.

Ainda assim,

alguém fica

numa cadeira,

numa lata,

num fim que não chega.

Não há mensagem.

Não há aprendizado.

Não há progresso.

Há o tempo

passando

sem cumprir promessa.

E a voz —

fraca, repetida, cansada —

não pede sentido.

Ela só diz:

ainda.

E enquanto houver

esse “ainda”,

o mundo

não acaba.

Não melhora.

Não salva.

Continua.

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