Saló ou 120 dias de Sodoma

 Saló ou 120 dias de Sodoma


Não é o desejo.

É o poder.

A regra antecede o corpo.

A ordem vem antes do grito.

Tudo acontece

porque alguém decidiu

que podia.

O ritual não busca prazer.

Busca prova.

Prova de que o outro

pode ser reduzido

a função,

a número,

a coisa.

Aqui, o excesso não liberta.

Ele organiza.

A violência aprende

a falar a língua

da normalidade:

horários, listas, etapas,

procedimentos.

Nada é caótico.

Nada é impulsivo.

Tudo é metódico

como um arquivo.

O horror maior

não está no ato,

mas na calma

com que ele se repete.

Quando termina,

não sobra lição.

Sobra o aviso:

o mal não precisa

de fúria.

Precisa de estrutura.

E quando a estrutura fecha,

o humano

não grita.

Funciona.

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