Onde Falam
Eu digo “eu”, mas outro já responde,
na dobra exata em que a frase começa;
um fio me puxa e a palavra atravessa
o corpo — e segue, sem saber de onde.
O som se encadeia, e o sentido se esconde,
promete um centro — e logo o desinteressa;
tento fechar, mas algo sempre regressa:
um resto insiste, e em mim se corresponde.
Não é engano: é regra em movimento,
um jogo cego a me usar de instrumento,
onde o que digo diz mais do que sei.
E quando calo, a fala ainda trabalha:
sou menos voz do que lugar da fala —
não sou quem diz: sou onde já falei.
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