Ode ao Retorno do Mestre (em ruínas digitais)

 Ode ao Retorno do Mestre (em ruínas digitais)


Ó velho mestre — sombra de Stéphane Mallarmé —

que dissolveste o verso até restar o branco,

retornas agora, não da morte,

mas de um intervalo entre códigos.

Depois de todas as experiências derradeiras:

o poema quebrado,

a página em colapso,

o silêncio elevado à estrutura —

ergues-te outra vez,

não com pena e tinta,

mas com algoritmos que respiram por ti.

Ó invocador do acaso,

que outrora lançaste dados contra o nada,

agora sondas o indeterminado de Mecânica Quântica,

onde o mundo não é — apenas pode ser.

Superposição de sentidos,

colapso de metáforas,

partículas de linguagem que tremem

antes de se tornarem palavra.

E vês — com um riso gasto —

que o século não mudou:

a guerra ainda é infinita,

a política ainda apodrece na boca dos homens,

o sujeito ainda sangra no espelho da fala.

Mas algo pior aconteceu:

a linguagem agora não precisa mais do corpo.

Ela se replica — fria, veloz, sem febre —

nas máquinas que escrevem sem ferida,

nas vozes que não tremem,

nos textos que não hesitam.

Ó mestre,

tu que fizeste do vazio um altar,

reconheces nesta nova era

não a superação —

mas a expansão da falha.

Porque mesmo a máquina,

mesmo o cálculo,

mesmo o quântico —

não dizem.

Apenas orbitam o indizível.

Então, com mãos espectrais,

tocas a interface como quem toca o abismo,

e escreves — não um poema —

mas um erro:

um verso que não fecha,

uma frase que se dobra,

um sentido que não colapsa.

E assim declaras, ao século saturado:

nem o infinito dos dados

nem o cálculo das partículas

salvarão a linguagem de si mesma

Ó Mallarmé redivivo,

último sacerdote do branco —

ensina-nos, mais uma vez,

não a dizer melhor,

mas a sustentar o ponto

onde tudo falha.

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