Nem o Nada (soneto)
Não foi o ser que aqui se dissipou,
nem foi o nada que restou no fim;
algo anterior ao verbo se calou
e fez da ausência um campo sem jardim.
Procurei nome, forma ou direção,
mas cada termo se partiu no ar;
a língua inteira, em lenta corrosão,
perdeu o chão onde podia estar.
Se digo “nada”, erro o que procuro;
se digo “ser”, já minto sem saber.
Há um lugar mais seco e mais escuro
onde até o vazio deixa de viver.
Ali termina a fala humana —
e o pensamento aprende a não dizer.
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