Nada (sestina)

 Nada

(sestina)


Caminho pela tarde como quem procura nada

o pensamento retorna sempre ao mesmo vazio

as ruas parecem repetir um antigo silêncio

como se o mundo estivesse cansado de ser mundo

e cada passo meu aprendesse a perder o sentido

até a memória dissolver o próprio tempo


O relógio continua sua lenta máquina de tempo

mas cada segundo confirma que não há nada

nem promessa capaz de restaurar o sentido

do olhar que atravessa o mesmo vazio

como se toda pergunta sobre o mundo

terminasse encostando no mesmo silêncio


É nesse ponto que começa o verdadeiro silêncio

quando percebemos que já não há mais tempo

para explicar a estranheza de existir no mundo

ou para fingir que existe algo além de nada

apenas essa respiração aberta no vazio

tentando dar à vida algum sentido


Mas talvez nunca tenha havido um sentido

apenas o rumor crescente do silêncio

abrindo espaço dentro do próprio vazio

onde se dissolve a pressão do tempo

e percebemos que sempre houve nada

por trás da arquitetura instável do mundo


Mesmo assim continuamos atravessando o mundo

como se ainda fosse possível algum sentido

mesmo quando tudo retorna ao mesmo nada

e as palavras acabam no fundo do silêncio

onde também se desfaz o próprio tempo

como poeira lenta girando no vazio


Talvez seja isso que chamamos de vazio

essa pausa secreta dentro do mundo

onde a consciência abandona o tempo

e já não exige das coisas um sentido

apenas escuta crescer o silêncio

até que também ele se transforme em nada


Envio


Quando o tempo se abre no vazio,

o mundo esquece o próprio sentido:

restam silêncio e nada.

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