Catástrofe


Catástrofe


Não foi o estrondo.

Foi o depois.

Quando tudo ainda estava em pé

mas já não servia.

A palavra continuava existindo

sem ninguém acreditar nela.

O gesto permanecia

sem promessa de resposta.

Chamaram de crise,

de fase,

de ajuste.

Mas era catástrofe:

o instante em que nada mais

cai —

e nada mais se sustenta.

Os vivos seguem andando

como quem atravessa escombros

que não fazem barulho.

Não há choro suficiente.

Não há culpado preciso.

Não há lição.

Só o tempo

andando sobre o que restou.

A catástrofe não termina.

Ela se instala.

E aprende a conviver

com o nome de normalidade.

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