Canto da Tradição e das Sombras
Canta, ó Musa, o fio invisível do tempo,
onde vozes antigas não cessam de falar,
onde o morto não morre, mas insiste
na dobra da palavra que ainda respira.
Canta o ofício secreto dos poetas,
que não criam — mas recebem o incêndio,
e no silêncio do sangue e da página
fundem o que foi, o que é, o que virá.
Lá caminha T. S. Eliot,
não como um homem, mas como lei:
“não há voz que seja apenas tua —
toda palavra carrega um coro de mortos.”
E assim os antigos se erguem no presente:
Homero não está longe —
ele vibra no verso que ainda não foi escrito,
como mar antigo batendo em língua nova.
E o poeta, pobre corpo atravessado,
não passa de um vaso onde o tempo se mistura,
um fio de platina ardendo sem deixar rastro,
um nome que se apaga para que o canto exista.
Mas há outro, nas ruas do mundo moderno,
curvado sobre papéis pequenos, dispersos,
anotando o mínimo: um gesto, uma pedra,
um silêncio que pesa mais que o dia.
É Carlos Drummond de Andrade,
guardião do ínfimo, escriba do quase-nada,
que recolhe o que cai do cotidiano
como quem salva restos de eternidade.
Seus bolsos são arquivos do instante,
suas mãos, depósitos de fragmentos,
e cada palavra — simples, doméstica —
é um eco remoto de eras incontáveis.
Pois mesmo no menor dos gestos
ressoa a vasta ordem invisível:
o passado inteiro comprimido
no breve rumor de uma frase.
E então, ao longe, na dobra da noite,
um trem desce a serra do mundo,
carregando um homem sem rosto,
feito de estrada, poeira e ausência.
É Bob Dylan,
que canta sem se fixar em canto algum,
que entra na linguagem como sombra
e dela sai como quem nunca esteve.
Ele não escreve — atravessa.
Não permanece — dissolve-se.
E sua voz, que parece tão sua,
é um acúmulo de vozes esquecidas.
Assim seguem, entre o visível e o oculto:
o teórico que nomeia o fluxo,
o poeta que recolhe o mundo em migalhas,
o cantor que se perde para que o som exista.
E todos obedecem à mesma lei:
não há origem — apenas passagem,
não há eu — apenas mistura,
não há presente — sem o peso do morto.
Ó Musa, sela este canto no tempo:
que o leitor saiba — ao abrir qualquer verso —
que ali não fala um homem,
mas uma multidão invisível
em combustão silenciosa.
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