Arthur Bispo do Rosário
Não pediu para ser artista.
Não pediu para ser visto.
Recebeu a tarefa.
O mundo veio desfiado
e alguém precisava
inventariar os restos.
Linha por linha,
objeto por objeto,
o real foi sendo costurado
sem metáfora,
sem ironia,
sem pedido de desculpa.
Não era obra.
Era ordem.
Cada nome bordado
não buscava sentido —
buscava existir.
Enquanto o mundo falava em cura,
ele catalogava.
Enquanto falavam em arte,
ele obedecia.
Não houve público.
Não houve mercado.
Não houve garantia.
Só a urgência
de registrar o que passa
antes que desapareça.
Arthur não representou o mundo.
Segurou o mundo
para que ele não se perdesse de si.
Quando tudo acabar,
não restará explicação.
Restará o inventário.
E isso
basta.
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