1
Desce de trem a Serra do Mar — sol e neblina —,
trilhos riscam o verde em linha mansa;
no vidro, a luz hesita e se inclina,
pingos desenham mapas de lembrança.
Chega a Morretes em passo de andarilho,
chapéu gasto, mochila sem história;
um intérprete verte o som em trilho,
tradução baixa, quase sem memória.
Almoça o barreado — barro, tempo e brasa —,
ninguém percebe o nome que não fica;
à tarde dorme: “Jack Frost” na casa rasa,
luz pelas frestas, quieta e oblíqua.
À noite, a chuva — em galeria de arte com bar —,
bebe e observa o mundo sem se dar.
2
Pela Serra do Mar desce o trem — sol e neblina —,
trilhos riscando o verde em curva lenta;
no vidro, a luz hesita e se inclina,
e o mundo em suspensão se reinventa.
Abismos respiram sob a folhagem,
pontes de ferro cruzam o vazio;
um rio surge e some na passagem,
como um pensamento em desvario.
O apito fere o ar, breve e profundo,
e ecoa entre encostas adormecidas;
cada túnel apaga e acende o mundo,
num jogo de sombras repetidas.
E ao fim da descida — sem alarde —,
o tempo chega outro, mais lento, mais tarde.
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