Os Assassinatos da Rua Morgue e o Método Investigativo Cartesiano

 Os Assassinatos da Rua Morgue e o Método Investigativo Cartesiano

Os Assassinatos da Rua Morgue ocupa um lugar inaugural na literatura moderna não apenas por fundar o gênero policial, mas por introduzir um novo modo de pensar o crime. Com Edgar Allan Poe, o assassinato deixa de ser tratado como pecado, destino ou desordem moral e passa a ser enfrentado como problema de razão. O detetive C. Auguste Dupin não busca culpados movido por indignação ética; ele busca verdade lógica. É nesse ponto que o conto se ancora profundamente no método filosófico de René Descartes.

O método cartesiano, formulado no Discurso do Método, baseia-se em princípios claros: duvidar do que não é evidente, dividir o problema em partes, ordenar o pensamento do simples ao complexo e revisar cuidadosamente cada passo. Dupin age exatamente assim. Diante de um crime aparentemente impossível — um assassinato brutal cometido em um quarto fechado — ele suspende as explicações correntes, rejeita o senso comum e começa pela dúvida radical. Nada é aceito porque “parece óbvio”. Tudo precisa ser demonstrado.

A polícia, no conto, representa o pensamento pré-cartesiano: acumula fatos, mas não os organiza; confunde quantidade de informação com compreensão; acredita que repetir procedimentos garante verdade. Dupin, ao contrário, aplica a decomposição analítica: separa os elementos do crime — vozes, força física, objetos, janelas, testemunhos — e examina cada um isoladamente. Ele não tenta encaixar os fatos em uma narrativa conhecida; permite que os fatos, analisados racionalmente, produzam uma nova narrativa.

Esse procedimento revela o núcleo cartesiano do método investigativo: a verdade não é revelada, ela é construída pela razão. Mesmo a solução extrema do conto — um orangotango como agente do crime — não é absurda no sentido filosófico. Ela é, paradoxalmente, a única hipótese que respeita todos os dados observáveis. Poe demonstra que o pensamento racional não conduz necessariamente ao conforto, mas à coerência. A razão não garante sentido moral; garante apenas consistência lógica.

Há ainda um aspecto decisivo que aproxima Dupin de Descartes: a primazia da mente sobre a ação. O detetive resolve o crime quase sem sair do gabinete. O verdadeiro campo de batalha é o pensamento. A investigação se dá no interior da consciência, não na cena do crime. Assim como o cogito cartesiano funda o sujeito moderno a partir do pensamento, Dupin funda o detetive moderno como aquele que pensa melhor, não como aquele que age mais.

Entretanto, Poe vai além de Descartes. Dupin não apenas analisa; ele simula o pensamento do outro. Ele se coloca no lugar do agente do crime, não para julgá-lo, mas para compreender sua lógica interna. Esse gesto anuncia um deslocamento importante: a razão moderna não se limita a ordenar o mundo; ela começa a penetrar a opacidade do comportamento humano. A literatura policial nasce, assim, como laboratório da razão aplicada à violência.

Os Assassinatos da Rua Morgue revela, portanto, que o nascimento do romance policial coincide com a consolidação de uma visão moderna de mundo: um mundo em que até o crime mais brutal pode ser lido como texto, desmontado como mecanismo e resolvido como equação. Poe transforma o assassinato em problema cartesiano e, ao fazê-lo, inaugura uma tradição que acredita — talvez ingenuamente — que todo horror é decifrável, desde que se pense com rigor suficiente.

A literatura policial começa quando a razão ousa olhar o crime sem recorrer ao mistério. E essa ousadia, como Poe demonstra, tem origem direta no método filosófico que ensinou o Ocidente a duvidar, analisar e reconstruir o real.

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