O nascimento do crime que funda a humanidade

 O nascimento do crime que funda a humanidade

O nascimento do crime que funda a humanidade não ocorre como acidente, mas como estrutura. Ele não é um desvio moral posterior à organização social; ao contrário, é o ato inaugural que torna a própria vida em comum possível. A tradição ocidental localiza essa origem de modo exemplar no fratricídio de Caim contra Abel, narrado em Gênesis 4. Não se trata apenas do primeiro assassinato, mas do momento em que o humano emerge como sujeito dividido, responsável e culpado.

Esse crime não nasce da necessidade material nem da luta por sobrevivência. Ele nasce da comparação. Caim não mata para viver; mata porque o outro foi reconhecido e ele, não. O crime surge quando o olhar do outro — ou de Deus — introduz a medida, a hierarquia, a ferida narcísica. A humanidade começa quando o homem descobre que não ocupa sozinho o centro do mundo. O assassinato é a resposta desesperada a essa descoberta.

A economia narrativa do texto bíblico é decisiva. Não há descrição do golpe, da arma ou do sangue. O crime é quase silencioso. O foco recai sobre a palavra que vem depois: “Onde está teu irmão?”. Com essa pergunta, inaugura-se algo absolutamente novo: a responsabilidade ética. Antes do crime, havia desejo e rivalidade; depois dele, há exigência de resposta. A humanidade nasce quando já não é possível agir sem ter de prestar contas.

A resposta de Caim — “Sou eu o guardador do meu irmão?” — funda, por sua vez, a ambiguidade central da civilização. Nela está contida a recusa do laço e, ao mesmo tempo, sua confirmação negativa. Ao negar a responsabilidade, Caim a reconhece como possibilidade. A sociedade futura será construída exatamente sobre essa tensão: ninguém quer ser guardador do outro, mas todos exigem que alguém o seja.

O castigo imposto a Caim aprofunda essa fundação trágica. Ele não é morto. É condenado a vagar, marcado, exposto ao olhar dos outros. A civilização não elimina o criminoso; ela o inscreve. A marca de Caim é o primeiro sinal de que o crime não será apagado, mas lembrado, administrado, transmitido. A lei nasce não para purificar o mundo, mas para impedir que o crime original se repita de forma absoluta — embora nunca consiga eliminá-lo.

Essa estrutura reaparece, em outra chave, na hipótese freudiana de Totem e Tabu, de Sigmund Freud, onde a civilização nasce do assassinato do pai primordial. Em ambos os casos, o gesto fundador é violento; e a ordem social surge como tentativa tardia de lidar com a culpa produzida por esse gesto. A lei não precede o crime: ela vem depois, como memorial e contenção.

O nascimento do crime que funda a humanidade é, portanto, o nascimento da própria história. A partir dele, não há mais inocência possível. Toda cultura, toda moral, toda política carrega em seu núcleo essa cena primeira: alguém eliminando o outro para tentar garantir um lugar impossível de garantir. É por isso que o crime não desaparece com o progresso; ele se transforma, se sofistica, se oculta — mas permanece.

A lição crítica dessa origem é dura e inegociável: a humanidade não se funda na bondade, nem na razão, nem na harmonia. Ela se funda numa fratura irreparável. Viver em sociedade é aceitar que esse crime inaugural não será redimido plenamente — apenas narrado, simbolizado e, provisoriamente, contido. É aí, e não antes, que começa o humano.

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