O crime sem sangue: a fundação do conflito em Esaú e Jacó

 O crime sem sangue: a fundação do conflito em Esaú e Jacó

Em Esaú e Jacó, de Machado de Assis, o crime não se apresenta como homicídio, nem como transgressão penal explícita. Ele surge de forma mais sutil e, por isso mesmo, mais radical: trata-se de um crime estrutural, inscrito na própria constituição do vínculo fraterno e na lógica social que o cerca. Machado desloca o crime do ato para a forma, do sangue para a repetição, da violência física para a impossibilidade de conciliação.

Desde o título, o romance invoca o mito bíblico da rivalidade entre irmãos, mas o reescreve sem clímax trágico nem redenção moral. Pedro e Paulo não se odeiam por um fato decisivo; odeiam-se porque nasceram assim, porque a oposição é o princípio organizador de suas identidades. O crime, aqui, não é matar o irmão — é precisar dele como inimigo para existir. Machado mostra que a civilização moderna sofisticou o gesto de Caim: já não é necessário eliminar o outro; basta neutralizá-lo simbolicamente, contradizê-lo eternamente, impedi-lo de produzir sentido.

Literariamente, o romance constrói esse crime por meio da ironia e da suspensão. Nada acontece de modo definitivo. Não há resolução, não há vitória, não há queda. A política, o amor, a ciência e até a maternidade giram em falso. Essa ausência de acontecimento é, paradoxalmente, o próprio acontecimento central do livro. O crime machadiano é o da vida administrada, onde os conflitos são perpetuados porque sua solução destruiria o sistema que os sustenta.

Flora, figura feminina central, funciona como a vítima perfeita desse crime sem culpado. Ela não é assassinada; é impossibilitada. Incapaz de escolher entre Pedro e Paulo — não por fraqueza, mas por lucidez — ela encarna a consciência trágica de que toda escolha, naquele mundo, já nasce contaminada. Sua morte não resulta de um golpe, mas da saturação do impasse. Machado sugere que a verdadeira violência moderna não é o excesso, mas a indefinição prolongada.

O narrador, cúmplice desse mecanismo, nunca oferece um juízo moral forte. Ele observa, comenta, ironiza, mas não condena. Com isso, o romance funda uma ética inquietante: o crime não é exceção, é normalidade. A civilização que emerge em Esaú e Jacó não se baseia na justiça nem na reconciliação, mas na convivência organizada do desacordo. Trata-se de um mundo em que ninguém é plenamente culpado — e justamente por isso ninguém é inocente.

Machado, ao escrever esse romance às vésperas da República, inscreve nele uma crítica profunda à fundação do Brasil moderno. A violência não está nas rupturas históricas, mas na continuidade dos antagonismos vazios, na troca de regimes sem transformação subjetiva. O crime fundamental é manter tudo em funcionamento sem permitir que algo realmente aconteça.

Assim, Esaú e Jacó propõe uma das visões mais sombrias da tradição ocidental: depois do fratricídio bíblico, aprendemos a não matar — mas não aprendemos a cessar a rivalidade. O crime permanece, agora polido, civilizado, irônico. E talvez por isso mesmo, mais difícil de nomear, julgar ou expiar.

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