No Princípio Foi o Crime: a Bíblia e a Fundação Violenta da Civilização Cristã Ocidental

 No Princípio Foi o Crime: a Bíblia e a Fundação Violenta da Civilização Cristã Ocidental

Bíblia não se inicia com uma lei, um pacto ou uma revelação serena. Ela começa com uma transgressão. Antes do mandamento, há a desobediência; antes da moral, a queda; antes da ordem, o crime. O gesto inaugural da narrativa bíblica não é a harmonia, mas a ruptura — e é dessa ruptura que nasce a civilização cristã ocidental.

Comer do fruto proibido não é apenas um pecado teológico: é o primeiro ato de autonomia humana. Adão e Eva não são expulsos do Paraíso por ignorância, mas por excesso de saber. A consciência surge como culpa. A história começa quando o ser humano descobre que pode dizer “não”. Desde então, toda organização social, toda lei, toda promessa de redenção carrega esse ponto obscuro: a necessidade de controlar aquilo que nasceu fora do controle.

Logo em seguida, o crime se radicaliza. Caim mata Abel — não por miséria material, mas por reconhecimento. O primeiro homicídio da história não nasce da fome, mas do olhar de Deus que escolhe. A violência emerge no interior da família, no coração do laço fraterno. A Bíblia estabelece, já aqui, um padrão decisivo: os grandes crimes não vêm de fora da comunidade, mas de dentro dela. O inimigo não é o estrangeiro; é o irmão.

A partir desse momento, a Escritura constrói uma pedagogia violenta. O dilúvio, a destruição de Sodoma, os sacrifícios, as guerras santas, os assassinatos legitimados, os estupros silenciados, os filhos mortos em nome da promessa — tudo isso não aparece como desvio ocasional, mas como estrutura narrativa. O crime não é exceção na Bíblia; é fundamento. Ele organiza a relação entre Deus e os homens, entre pais e filhos, entre reis e povo, entre lei e desejo.

O que a tradição cristã posterior chamará de “moral” nasce, paradoxalmente, da administração dessa violência original. A lei não surge para impedir o crime, mas para dar-lhe forma, sentido e limite. Cada mandamento carrega a memória de uma transgressão anterior. Não matarás — porque já se matou. Não desejarás — porque o desejo já devastou casas, reinos e linhagens inteiras. A ética bíblica não é idealista: ela é traumática.

Este livro parte de uma hipótese incômoda: a civilização cristã ocidental não se funda sobre a superação da violência, mas sobre sua sacralização controlada. O crime é condenado, mas também narrado, repetido, reinterpretado e, muitas vezes, justificado. A Bíblia não esconde o horror; ela o expõe — e, ao expor, o torna constitutivo.

Ler a Bíblia como arquivo de crimes não é um gesto anticristão, mas radicalmente crítico. É recusar a leitura edulcorada que transforma sangue em metáfora e violência em lição abstrata. É reconhecer que a promessa de salvação cristã só faz sentido porque algo irremediável já foi quebrado no início. A redenção só existe porque o crime veio primeiro.

No princípio, portanto, não foi a palavra pacificadora.

No princípio, foi o crime — e tudo o que veio depois foi uma tentativa, sempre incompleta, de conviver com ele.

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