Ló e suas filhas: o incesto como resto da catástrofe
O episódio de Ló e suas filhas, narrado em Gênesis 19, é um dos textos mais perturbadores da Bíblia porque apresenta o incesto não como desejo, prazer ou perversão individual, mas como subproduto direto da destruição do mundo. O crime não nasce do excesso de vida, mas do medo absoluto do fim.
Após a aniquilação de Sodoma e Gomorra, Ló e suas filhas refugiam-se numa caverna. Esse detalhe espacial é decisivo: a caverna simboliza o retorno a um estado pré-social, anterior à cidade, à lei e à mediação simbólica. Não há mais comunidade, não há mais futuro visível, não há mais homens. O mundo, para as filhas, acabou. É nesse vazio que o crime se torna pensável.
A iniciativa parte das filhas, e o texto é claro quanto a isso. Elas decidem embriagar o pai e se deitar com ele para “preservar a descendência”. Não há romantização nem absolvição moral, mas há uma explicação brutal: quando a história parece encerrada, o corpo do pai torna-se o último recurso biológico. O incesto surge como solução desesperada diante da extinção. Não é desejo; é cálculo de sobrevivência.
Ló, por sua vez, ocupa uma posição ambígua e inquietante. Ele não consente conscientemente, pois está embriagado, mas também não exerce mais nenhuma função simbólica de pai. Ele é reduzido a corpo, a instrumento reprodutivo. O pai, que deveria ser o representante da lei e do limite, aparece aqui como figura destituída de autoridade, incapaz de proteger, interditar ou orientar. O incesto acontece porque o pai já caiu antes mesmo do ato.
O texto bíblico não descreve punição imediata, nem intervenção divina direta após o crime. Essa ausência é significativa. A Bíblia não trata o episódio como escândalo isolado, mas como efeito colateral de uma catástrofe maior. A destruição de Sodoma não elimina o mal; ela o desloca. Fora da cidade corrompida, o mal retorna de forma ainda mais íntima, agora no interior da família.
Os filhos gerados desse incesto — Moabe e Ben-Ami — tornar-se-ão ancestrais de povos que Israel verá, mais tarde, como inimigos. A genealogia transforma o crime em história. O texto sugere, assim, que certos conflitos políticos e étnicos nascem de origens moralmente irredimíveis. Não há começo puro. A história começa manchada.
Literariamente, este episódio desmonta qualquer visão ingênua da moral bíblica. A Bíblia não apresenta uma humanidade que cai gradualmente no pecado; ela apresenta uma humanidade que sobrevive ao fim do mundo carregando seus restos. O incesto de Ló e suas filhas afirma algo profundamente desconfortável: quando a civilização colapsa, não retornamos à inocência — retornamos ao impensável.
A lição crítica do texto é dura: o tabu do incesto só existe enquanto há mundo, lei e futuro. Quando tudo isso desaparece, o limite simbólico se dissolve. O crime, aqui, não é exceção moral, mas sintoma de um mundo que já acabou. E talvez seja essa a afirmação mais radical do episódio: mesmo salvos da destruição, os sobreviventes não estão salvos daquilo que a destruição deixa para trás.
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