Esaú e Jacó: o Crime sem Sangue e a Tragédia da Indecisão

 Esaú e Jacó: o Crime sem Sangue e a Tragédia da Indecisão

Esaú e Jacó, de Machado de Assis, não apresenta assassinatos, facadas ou cenas de violência explícita. Ainda assim, é um dos livros mais profundamente criminais da literatura brasileira — porque nele o crime não é o ato, mas a paralisia, a sabotagem silenciosa do futuro e da história.

Machado desloca radicalmente a noção de crime. Aqui, não se mata o corpo do outro; mata-se o sentido, a possibilidade de decisão, a promessa de transformação. Pedro e Paulo, gêmeos que encarnam posições políticas opostas — Império e República — vivem em conflito permanente sem jamais levá-lo até o fim. O crime fundamental do romance é justamente esse: o conflito que não se resolve, a guerra que nunca acontece, a violência que se adia indefinidamente.

Ao contrário do crime bíblico de Caim, que funda a história pelo sangue, Esaú e Jacó funda a modernidade brasileira pelo empate eterno. A rivalidade entre os irmãos não produz ruptura; produz repetição. Nada se decide, nada se rompe, nada se assume integralmente. Machado sugere que há sociedades que não se estruturam a partir de um crime fundador explícito, mas de algo talvez mais devastador: a incapacidade de escolher.

Flora, figura central do romance, é a maior vítima desse crime difuso. Amada pelos dois irmãos, ela não consegue escolher — e essa impossibilidade não é psicológica apenas, mas histórica. Flora adoece e morre não por excesso de paixão, mas por excesso de ambiguidade. Seu corpo paga o preço da indecisão masculina, política e simbólica. O romance indica, com crueldade precisa, que quando o conflito não encontra forma, ele encontra um corpo para se inscrever.

Machado escreve contra a lógica heroica do crime. Em vez do gesto violento que inaugura a lei, ele apresenta a burocratização do conflito, o adiamento contínuo, a ironia como anestesia moral. O Brasil que emerge de Esaú e Jacó não é fundado por um assassinato trágico, mas por uma sequência de não-atos. O crime moderno, aqui, é a normalização da contradição sem enfrentamento.

Se na Bíblia o crime funda a civilização pela culpa, e em Poe o crime funda o método pela razão, em Machado o crime funda a sociedade pela irresponsabilidade elegante. Ninguém é plenamente culpado, porque ninguém age até o fim. Todos estão certos e errados ao mesmo tempo. O resultado não é reconciliação, mas estagnação.

Esaú e Jacó revela, assim, uma forma tipicamente moderna — e brasileira — de crime:

um crime sem cadáver,

sem julgamento,

sem punição,

mas com efeitos históricos profundos.

Machado parece dizer que há violências mais perigosas do que o assassinato: aquelas que se escondem na neutralidade, no “tanto faz”, na recusa de assumir consequências. O romance não narra um crime; ele mostra como uma sociedade inteira pode ser construída sobre a ausência de decisão.

E essa talvez seja a acusação mais dura que a literatura já fez ao Brasil:

nem todo crime grita.

Alguns governam em silêncio.

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