Crime e civilização: a fundamentação do crime em Totem e Tabu
Em Totem e Tabu, Sigmund Freud propõe uma das hipóteses mais perturbadoras da modernidade: a civilização não nasce da superação do crime, mas da sua institucionalização simbólica. O crime, longe de ser um desvio ocasional, aparece como o ato inaugural que funda a lei, a moral e a própria possibilidade de vida coletiva.
Freud imagina a cena mítica do assassinato do pai primordial pela horda dos filhos. Esse pai concentra todo o poder: goza sem limites, proíbe o acesso às mulheres e impede qualquer autonomia. O parricídio surge, então, como gesto de libertação. No entanto, o ponto decisivo do texto não é o assassinato em si, mas o que vem depois: o arrependimento, a culpa e a criação da lei. A civilização nasce quando os filhos, tomados pelo remorso, transformam o pai morto em totem — isto é, em símbolo inviolável.
Literariamente, Totem e Tabu opera como uma tragédia sem palco. Não há personagens individualizados, nem psicologia refinada; há uma cena arcaica, repetida como estrutura. O crime é absoluto, mas sua consequência é paradoxal: ao matar o pai, os filhos criam algo mais poderoso do que ele — a interdição interiorizada. A lei não substitui o crime; ela o conserva como fundamento. Toda proibição carrega, em silêncio, a lembrança do desejo que a transgrediu.
Freud desloca radicalmente a noção de civilização. Ela não se funda no progresso moral, mas na renúncia pulsional forçada pela culpa. Amar o próximo, respeitar a lei, conter a violência — tudo isso repousa sobre um pacto inconsciente com um crime original jamais reparado. A cultura não elimina o mal; ela o recalca, e o recalque é sempre instável. Por isso, a agressividade retorna: nas neuroses, nas guerras, nos ódios coletivos.
O caráter mais inquietante de Totem e Tabu está em sua recusa de qualquer inocência originária. Não houve idade do ouro. No começo, não estava a palavra, nem o contrato, nem a razão — estava o assassinato em comum. A fraternidade nasce manchada de sangue. A igualdade entre os irmãos só se torna possível porque todos participaram do mesmo crime e, portanto, compartilham a mesma culpa.
Nesse sentido, Freud aproxima-se tanto do mito bíblico de Caim quanto da tragédia grega: a lei surge sempre depois da violência, nunca antes. O crime não é a negação da civilização; é sua condição de possibilidade. Toda ordem social carrega, em seu núcleo, aquilo que precisa negar para continuar existindo.
A lição final de Totem e Tabu é profundamente desconfortável para a civilização ocidental: obedecemos à lei não porque somos bons, mas porque somos culpados. A paz social não é fruto da harmonia, mas do medo de repetir — conscientemente — um crime que já foi cometido uma vez e que, inconscientemente, continua a nos habitar.
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