Zaratustra: a tentativa de ocupar o lugar do Real


Zaratustra: a tentativa de ocupar o lugar do Real

Assim Falou Zaratustra marca o momento em que Nietzsche abandona definitivamente a filosofia como discurso conceitual e assume a voz. Não a voz do argumento, mas a voz do profeta. Essa escolha formal não é neutra: ela já indica que o pensamento não se sustenta mais no conceito, mas exige encarnação. Do ponto de vista lacaniano, esse gesto é decisivo e perigoso, pois toda vez que o discurso se desloca do conceito para a voz, o sujeito corre o risco de confundir o que diz com o lugar de onde fala. Zaratustra não é apenas um personagem literário; ele funciona como um semblante de Sujeito-suposto-saber, alguém que retorna do deserto investido de uma verdade que não admite réplica.

Nietzsche anuncia a morte de Deus como acontecimento libertador, mas Lacan nos obriga a formular a questão de outro modo: Deus pode morrer, mas o lugar do Grande Outro permanece. O problema não é a existência de Deus, e sim a função que ele ocupa na estrutura. O que Zaratustra faz não é destruir essa função, mas deslocá-la. No vazio deixado por Deus, instala-se a própria voz de Zaratustra. A autoridade transcendente não é abolida; ela é encarnada. O profeta não desmonta o Outro, ele o reocupa. A crítica à metafísica termina paradoxalmente numa nova forma de metafísica da voz.

O além-do-homem aparece, então, como a promessa de uma superação absoluta do humano. No entanto, lacanianamente, essa figura não corresponde à travessia da falta, mas à sua recusa. O além-do-homem funciona como uma idealização extrema do Eu Ideal, uma imagem de plenitude que promete um sujeito reconciliado consigo mesmo, sem divisão, sem resto, sem dependência do Outro. Não se trata do desejo, que nasce da falta, mas de uma fantasia narcísica de autossuficiência. O sujeito de Zaratustra não consente com a castração; ele a transforma em obstáculo a ser superado. O resultado não é emancipação, mas inflação imaginária.

O eterno retorno, frequentemente lido como a prova suprema da afirmação da vida, revela-se, sob o olhar lacaniano, como uma exigência superegóica cruel. Desejar o retorno eterno de tudo o que foi vivido não é um gesto ético, mas uma ordem impossível: goza infinitamente do mesmo. O desejo, porém, não se repete de forma idêntica; ele falha, se desloca, tropeça. A repetição, em Lacan, é sempre marcada por um erro estrutural. O eterno retorno, ao exigir uma repetição sem falha, transforma-se numa máquina de gozo mortífero. Aquilo que se apresenta como libertação do niilismo acaba por aprofundá-lo, pois submete o sujeito a uma exigência absoluta de afirmação.

A linguagem poética de Nietzsche, longe de abrir o Real, tenta recobri-lo. A poesia de Zaratustra não sustenta o furo; ela o preenche com imagens, ritmos e exortações. Onde Lacan aposta no corte, no silêncio e na escansão, Nietzsche aposta na profusão da palavra. O excesso de sentido funciona como defesa contra aquilo que não pode ser simbolizado. O deserto de onde Zaratustra retorna não é o encontro com o Real, mas o lugar onde o Real foi transformado em narrativa.

Por isso, do ponto de vista lacaniano, Assim Falou Zaratustra não é a obra da travessia do niilismo, mas o documento de seu ponto mais perigoso. Não é a aceitação da falta, mas sua negação exaltada. Nietzsche percebe com clareza a morte das garantias simbólicas do Ocidente, mas não suporta a consequência última desse gesto: viver sem um Outro que ordene, que diga, que chame. Zaratustra fala porque o silêncio seria insuportável.

A radicalidade de Zaratustra está aí: ele revela que o sujeito prefere um novo tirano — mesmo poético, mesmo afirmativo — ao vazio estrutural da falta. Lacan responderia sem hesitação: não é no grito do profeta que o sujeito se encontra, mas no ponto em que a voz cai. E é exatamente esse ponto que Zaratustra não suporta atravessar.

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