**“Você tem de mudar sua vida” —
uma crítica lacaniana radical**
A frase de Peter Sloterdijk — “Você tem de mudar sua vida” — se apresenta como gesto filosófico extremo, mas, do ponto de vista lacaniano, ela carrega uma ambiguidade perigosa: aquilo que se anuncia como libertação pode operar, silenciosamente, como nova forma de comando superegóico.
À primeira vista, a sentença parece romper com a moral tradicional. Não promete salvação, não invoca Deus, não apela a valores universais. Ela soa quase clínica, quase neutra. No entanto, é precisamente aí que reside seu radicalismo problemático: ao retirar o fundamento moral explícito, a frase se instala diretamente no lugar do Outro, falando como uma exigência sem rosto, sem justificativa, sem mediação simbólica.
Para Lacan, o problema não é mudar de vida. O problema é quem ordena a mudança.
Na ética lacaniana, o sujeito não é convocado a se reformar, melhorar ou otimizar a si mesmo. Ao contrário: ele é confrontado com a impossibilidade estrutural de coincidir consigo. O desejo, em Lacan, não é um projeto de aperfeiçoamento, mas uma falta que nunca se resolve. Por isso, a famosa máxima “não ceder do seu desejo” não é um imperativo de ação, mas uma advertência ética contra a submissão ao ideal.
Sloterdijk, ao afirmar que “você tem de mudar sua vida”, desloca a questão do desejo para o campo do treino. A vida aparece como algo que deve ser reformatado por exercícios, práticas, regimes de formação. O sujeito deixa de ser dividido e passa a ser inacabado — algo que precisa ser trabalhado. Do ponto de vista lacaniano, esse deslocamento é decisivo: a falta deixa de ser estrutural e se torna um déficit técnico.
É aqui que a frase revela sua face mais violenta. Em Lacan, o superego não diz “seja bom”, mas “goza!”. Ele ordena sem oferecer saída. A frase de Sloterdijk funciona de modo semelhante: mude sua vida, mas sem dizer para quê, nem segundo qual medida, nem com que garantia. Trata-se de um imperativo puro, vazio de conteúdo, mas absoluto na forma. Exatamente como o superego.
Além disso, ao insistir que a vida é sempre produto de antropotécnicas, Sloterdijk corre o risco de apagar o real — aquilo que não se treina, não se educa, não se otimiza. Para Lacan, há algo no sujeito que resiste a toda pedagogia: o sintoma. O sintoma não é um erro de formação, mas uma solução singular para o impossível. Quando a vida é pensada apenas como algo a ser “mudado”, o sintoma tende a ser visto como falha, como mau hábito, como treino mal sucedido. E isso é, para a psicanálise, uma violência clínica e ética.
A frase de Sloterdijk também elimina o valor do fracasso. Em Lacan, o fracasso não é acidente; é estrutura. O sujeito falha porque o desejo falha. E é justamente aí que ele existe. A exigência de mudança contínua, ao contrário, alinha-se perigosamente ao discurso contemporâneo da performance: sempre é possível melhorar, adaptar, treinar mais. O que não muda suficientemente é culpado. O que não acompanha, sobra.
Do ponto de vista lacaniano, a crítica decisiva é esta:
“Você tem de mudar sua vida” não deixa espaço para o ato.
Ela exige adaptação, não ruptura. O ato, em Lacan, é raro, arriscado e sem garantias. Ele não melhora a vida — ele a compromete. A frase de Sloterdijk, ao contrário, insere o sujeito num processo infinito de autoformação, onde a mudança se torna obrigação permanente.
Em última instância, a frase falha onde Lacan é mais radical: ela não reconhece que há algo no sujeito que não deve mudar, porque não pode mudar. Algo que não se educa, não se treina, não se otimiza. Algo que insiste, retorna, atrapalha — e justamente por isso testemunha a existência do desejo.
Se Sloterdijk diz: “Você tem de mudar sua vida”,
Lacan responderia, com frieza:
“Cuidado: essa exigência pode ser apenas mais uma forma de ceder do seu desejo.”
A crítica lacaniana, portanto, não nega a lucidez de Sloterdijk. Ela aponta seu limite ético: ao transformar a vida em objeto de treinamento, sua filosofia corre o risco de produzir sujeitos perfeitamente formados — e completamente capturados.
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