Tratado lacaniano sobre Nietzsche e a Filosofia (1962), de Gilles Deleuze
Ou: da tentativa de abolir a falta e da reinstalação silenciosa do gozo
Prólogo — Da ambição do livro
Nietzsche e a Filosofia é um livro de fundação. Deleuze não escreve apenas sobre Nietzsche; ele o reinscreve como origem de uma nova ontologia. O gesto é radical: libertar Nietzsche do negativo, da dialética, da moral, da culpa e de toda leitura trágica fundada na falta. Contudo, do ponto de vista lacaniano, é justamente aí que o livro se torna problemático. Ao expulsar o negativo, Deleuze não emancipa o pensamento: ele expulsa o sujeito.
Este tratado sustenta a tese de que Nietzsche e a Filosofia realiza uma operação de purificação ontológica que, ao eliminar a falta, elimina também o desejo, substituindo-o por um regime de forças onde o gozo circula sem lei.
I — Da leitura como apropriação
Deleuze lê Nietzsche contra toda tradição dialética, mas o faz ao preço de uma apropriação silenciosa. Nietzsche torna-se o pensador da diferença pura, da afirmação sem resto, da pluralidade de forças que não conhece negatividade originária. Ora, para Lacan, toda leitura que elimina o negativo elimina também a estrutura do inconsciente.
O inconsciente não é afirmativo; ele é fendido. Ele não é potência; ele é hiância. Ao converter Nietzsche em pensador da diferença ontológica, Deleuze o retira do campo do conflito subjetivo e o instala num plano onde o sujeito não é mais necessário. Nietzsche deixa de ser o pensador do abismo e torna-se o pensador de um mundo sem buracos.
II — Da diferença sem corte
A diferença, em Deleuze, precede o negativo. Ela não resulta de uma oposição, mas se afirma por si mesma. Essa diferença não conhece corte, apenas variação. Lacan, porém, é categórico: sem corte, não há sujeito.
O sujeito nasce da incidência do significante, isto é, de um corte no real do corpo. Onde não há corte, há continuidade; onde há continuidade, não há desejo, apenas circulação. A diferença deleuziana é ontológica, mas não é estrutural. Ela não produz divisão subjetiva, apenas multiplicidade.
O resultado é um pensamento que fala da vida, das forças e das intensidades, mas não sabe o que fazer com o sintoma.
III — Da vontade de poder como fantasia de imanência
Deleuze interpreta a vontade de poder como relação diferencial entre forças, recusando qualquer leitura psicológica ou subjetiva. No entanto, essa leitura transforma a vontade de poder numa máquina sem limite simbólico. Tudo é força, tudo é relação, tudo é transformação.
Para Lacan, isso configura uma fantasia de imanência total: um mundo sem exceção, sem Nome-do-Pai, sem ponto de impossibilidade. Ora, a Lei não é um resíduo moral a ser superado; ela é a condição mínima para que o gozo não se torne absoluto.
Ao abolir a Lei como estrutura simbólica, Deleuze não liberta o desejo; ele o dissolve numa economia de gozo sem regulação.
IV — Do negativo como erro e da castração como escândalo
Em Nietzsche e a Filosofia, o negativo é sempre secundário, reativo, produto de forças fracas. Essa tese, lacanianamente, é insustentável. A castração não é um erro histórico nem um efeito reativo; ela é estrutural.
A falta não resulta da fraqueza; ela é a condição do desejo. Ao transformar o negativo em patologia, Deleuze transforma o limite em doença e a divisão em falha. O sujeito que emerge desse pensamento é um sujeito impossível: inteiro, afirmativo, sem resto.
Trata-se de um ideal ontológico que, clinicamente, só pode produzir sofrimento.
V — Da crítica à moral e da perda da ética
Deleuze tem razão ao denunciar a moral como sistema de julgamento e ressentimento. Contudo, ao destruir a moral, ele não reconstrói uma ética — ele a dissolve. Para Lacan, a ética não se funda na afirmação da vida, mas na não-cedência quanto ao desejo.
Essa ética supõe limite, impossibilidade, falha. O desejo não coincide com a potência; ele nasce do que falta. Ao confundir ética com afirmação, Deleuze converte o pensamento numa exigência superegóica disfarçada: afirma, intensifica, circula.
O supereu moderno não diz “não”; ele diz “mais”.
VI — Do retorno do gozo
Tudo aquilo que é expulso retorna. Ao expulsar a falta, Deleuze faz retornar o gozo em estado bruto. O mundo das forças, das intensidades e das diferenças é também um mundo sem freio simbólico. O gozo não encontra limite; ele se espalha.
Lacan ensina que o gozo sem limite é mortífero. O pensamento deleuziano, ao se querer libertário, aproxima-se perigosamente de uma ontologia do excesso, onde nada pode parar, nada pode faltar, nada pode falhar.
Nietzsche, em Deleuze, deixa de ser trágico para tornar-se eufórico. E toda euforia prolongada é, para a psicanálise, um sintoma.
Conclusão — Do ponto onde Lacan recusa Deleuze
A crítica lacaniana a Nietzsche e a Filosofia não é moral, nem conservadora. Ela é estrutural. Deleuze tenta pensar um mundo sem falta, mas o sujeito não sobrevive a esse mundo. Onde tudo é afirmado, nada é desejado. Onde não há corte, não há fala. Onde não há Lei, o gozo se torna tirano.
Lacan não responde a Deleuze com outro sistema, mas com um limite:
não há filosofia sem falta,
não há desejo sem castração,
não há pensamento sem resto.
Nietzsche e a Filosofia é um livro poderoso, mas perigoso. Ele oferece ao pensamento uma embriaguez ontológica que ignora o preço subjetivo dessa embriaguez. Do ponto de vista lacaniano, isso não é libertação — é recusa da condição humana.
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