Revival, de Stephen King — uma leitura lacaniana extremamente radical

 Revival, de Stephen King —

uma leitura lacaniana extremamente radical

Revival é o livro em que Stephen King comete seu gesto mais cruel: ele não cria um monstro, ele retira o Outro. E, do ponto de vista lacaniano, isso é o pior que pode acontecer a um sujeito.

Desde o início, o romance se organiza como uma narrativa clássica de suplência: infância, música, fé, ciência, amizade, perda. Cada elemento funciona como tentativa de tamponar a falta. O reverendo Jacobs ocupa inicialmente o lugar do Nome-do-Pai: é aquele que dá sentido à morte, organiza o mundo simbólico, promete que o real da perda será compensado por um além. Quando a família de Jacobs morre, não é apenas um trauma pessoal; é a queda do significante mestre. Deus falha. O Pai cai. O Outro começa a vacilar.

Lacan nos ensina que o sujeito só se sustenta porque acredita que “em algum lugar isso faz sentido”. Revival é a narrativa da destruição progressiva dessa crença. Jacobs não se torna um vilão no sentido moral; ele se torna um sujeito sem Outro. Sua obsessão científica não é curiosidade, mas compulsão: ele tenta forçar o real a responder onde o simbólico se calou. A eletricidade, no romance, não é ciência; é fetiche. É a tentativa desesperada de arrancar do real uma resposta que o simbólico não deu.

Jamie Morton, o narrador, é ainda mais trágico. Ele encarna perfeitamente o sujeito lacaniano contemporâneo: sem fé, sem ilusão, sem ideal, mas ainda preso ao desejo de que “algo” funcione. Drogas, música, memória, amizade — tudo opera como objeto a, pequenas próteses de gozo para sustentar a vida. Jamie não busca a verdade; ele busca anestesia. E King é implacável ao mostrar que nenhuma delas funciona.

O golpe final de Revival não é o horror cósmico em si. O golpe é estrutural. Quando a “verdade” do além é revelada, não se trata de inferno, punição ou justiça. Trata-se de algo muito pior: um real sem sentido, sem linguagem, sem desejo. As entidades que governam o pós-vida não são demônios no sentido simbólico; são figuras do Real puro, aquilo que Lacan define como o impossível de simbolizar. Não há lei, não há exceção, não há misericórdia. Apenas repetição e servidão.

Aqui está o ponto mais radical: Revival mostra que o pior não é a morte, mas a sobrevivência sem desejo. O pós-vida descrito por King é a realização extrema do superego: “Goza!”, mas sem prazer; “Existe!”, mas sem sentido; “Continua!”, mas sem falta. É o triunfo absoluto do gozo mortífero. Não há falta, logo não há desejo. E sem desejo, não há sujeito.

Do ponto de vista lacaniano, isso é devastador porque desmonta até a fantasia mínima que sustenta a análise: a de que o real, embora traumático, deixa restos, falhas, intervalos. Em Revival, não. O real vence totalmente. Não sobra resto. Não sobra sintoma. Não sobra poesia. O horror final não é excessivo; é total.

Stephen King, que passou a carreira inteira oferecendo algum tipo de reparação simbólica — amizade, infância, memória, luta contra o mal — aqui se recusa a fazê-lo. Revival é o livro em que King diz ao leitor: não há travessia do fantasma. Há apenas a constatação de que o fantasma era o que nos permitia viver.

Se Lacan dizia que “a verdade só se diz pela metade”, Revival comete a obscenidade de tentar dizê-la inteira. E a verdade inteira é insuportável. Por isso o livro não consola, não educa, não transforma. Ele apenas deixa o leitor diante do que Lacan chamaria de real sem lei.

Em última instância, Revival é radical porque afirma aquilo que a psicanálise tenta evitar dizer frontalmente:

👉 não é o mal que nos destrói, é a ausência de qualquer garantia de sentido.

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