O Lobo de Wall Street


O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese, não é um filme sobre dinheiro, drogas ou excesso. Esses elementos funcionam apenas como superfície espetacular de algo mais profundo e mais obsceno: a exposição sem pudor do discurso do capitalista, tal como formulado por Jacques Lacan. O que o filme encena não é a corrupção moral de um indivíduo, mas a estrutura de um mundo no qual o sujeito foi substituído pelo gozo e a falta foi declarada obsoleta. Jordan Belfort não é um personagem trágico, nem um anti-herói, nem um vilão. Ele é algo mais inquietante: um operador puro de gozo, um sujeito sem divisão subjetiva, um corpo falante capturado integralmente pela lógica superegóica do capitalismo tardio.

Desde o início, Belfort não apresenta conflito interno. Não há culpa, hesitação ou drama. Essa ausência não é casual. Lacanianamente, ela indica que não estamos diante de um sujeito neurótico, dividido pelo significante, mas diante de um sujeito que funciona como suporte do objeto a, isto é, daquilo que causa o desejo do Outro. Belfort não deseja; ele é desejado como modelo. Ele não pergunta o que o Outro quer; ele encarna a resposta pronta: goze, consuma, exceda, ultrapasse todos os limites. O filme, nesse sentido, não narra uma ascensão e queda, mas uma repetição pulsional sem dialética. Tudo retorna ao mesmo ponto: mais dinheiro, mais drogas, mais corpos, mais humilhação, mais excitação. Não há progresso, apenas aceleração.

Lacan afirma que o discurso do capitalista é aquele no qual o circuito simbólico se fecha sem resto, sem falha, sem impossibilidade. Diferentemente dos outros discursos, ele promete uma satisfação direta, imediata, sem mediação da Lei. O Lobo de Wall Street é a imagem perfeita dessa promessa perversa. No universo de Belfort, tudo é acessível, tudo é comprável, tudo é substituível. O objeto causa do desejo não é mais aquilo que falta, mas aquilo que se acumula. O resultado não é plenitude, mas saturação. E é justamente essa saturação que torna o filme tão perturbador: nada falta, e por isso nada faz sentido.

O excesso mostrado no filme costuma ser interpretado como transgressão, mas essa leitura é ingênua. Jordan Belfort não transgride nenhuma lei fundamental; ele obedece integralmente à lei mais cruel de todas: a lei superegóica do gozo. Freud já havia indicado que o supereu não apenas proíbe, mas ordena. Lacan radicaliza essa tese ao mostrar que o supereu contemporâneo não diz “não goze”, mas “goze ainda mais”. Belfort é o funcionário ideal desse supereu. Seu comportamento não é libertino, mas disciplinado. Ele trabalha sem parar para gozar e goza sem parar para continuar trabalhando. Não há espaço para o desejo, porque o desejo exige falta, intervalo, espera. Aqui, tudo é imediato.

As mulheres no filme não aparecem como sujeitos, e isso não é um erro ético do diretor, mas uma consequência lógica da estrutura que ele retrata. Na economia libidinal de Belfort, o outro não é um sujeito desejante, mas um objeto de uso. O corpo feminino circula como mercadoria, exatamente como as ações fraudulentas que ele vende. Não há erotismo, apenas pornografia do gozo. Lacan nos lembra que o erotismo nasce da falta, do véu, do não-todo. No mundo de Belfort, não há véu, não há mistério, não há não-saber. Tudo é exibido, porque tudo deve ser consumido. O resultado é paradoxal: quanto mais sexo, menos desejo; quanto mais corpos, menos encontro.

A linguagem, que em Lacan funda o sujeito, aqui aparece degradada a instrumento de excitação. Belfort fala o tempo todo, mas sua fala não produz laço simbólico. Seus discursos motivacionais não transmitem sentido; eles produzem efeitos corporais. Seus funcionários não acreditam no que vendem, mas entram em transe com a própria performance da venda. A palavra não significa, ela estimula. É linguagem reduzida a droga. Nesse ponto, o filme toca algo central da crítica lacaniana ao capitalismo: quando a linguagem deixa de operar como significante, ela se torna ruído que empurra ao gozo.

O desfecho do filme é talvez seu momento mais radical. Não há redenção, aprendizado ou verdadeira punição. Belfort cai apenas o suficiente para que o sistema continue funcionando. Ele retorna como coach, como palestrante, como mestre da venda. O discurso muda de forma, mas não de estrutura. O capitalista não é destruído por seus excessos; ele se recicla. Lacan dizia que o discurso do capitalista “anda sobre rodas”, mas que essas rodas giram rápido demais e acabam por se consumir. O filme termina exatamente nesse ponto de suspensão: não vemos a explosão final, apenas a continuidade do circuito.

Assim, O Lobo de Wall Street não é um filme imoral nem moralizante. Ele é pior — ou melhor — do que isso. Ele é um espelho obsceno no qual o espectador se vê implicado. Rimos, nos excitamos, nos chocamos, mas raramente nos retiramos da cena. Isso porque o filme não denuncia o capitalismo de fora; ele o encena por dentro. Lacanianamente, essa é sua violência maior: ele não nos oferece distância crítica suficiente para salvar nossa inocência. Ele nos confronta com uma verdade incômoda — não a de que o capitalismo é corrupto, mas a de que ele funciona precisamente porque promete abolir a falta, e ao fazê-lo, produz sujeitos vazios, saturados e condenados à repetição infinita do gozo.


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