O gozo do silêncio: uma crítica lacaniana de Five Dedicated to Ozu
Five Dedicated to Ozu costuma ser celebrado como um gesto de humildade, contemplação e fidelidade ao espírito de Yasujiro Ozu. Planos fixos, ausência de narrativa, duração estendida, natureza indiferente. Tudo parece apontar para uma ética da escuta, da paciência e do recuo do sujeito. No entanto, sob uma leitura lacaniana rigorosa, o filme revela algo muito menos pacificado: não a suspensão do sujeito, mas sua evacuação; não uma ética do desejo, mas uma estética da renúncia.
Kiarostami parece operar a partir da ideia de que o cinema pode finalmente calar. A câmera observa troncos, cães, patos, ondas, pessoas que atravessam o quadro sem função dramática. Nada se organiza como conflito, nada exige decisão, nada convoca a palavra. Mas é justamente aqui que o problema lacaniano emerge: o silêncio não é neutro. O silêncio também é um modo de gozo.
Para Lacan, o sujeito não se dissolve simplesmente porque a linguagem recua. Ao contrário: quando o simbólico se retrai, o Real não se pacifica — ele invade. O que Five Dedicated to Ozu propõe como serenidade é, na verdade, uma fantasia de mundo sem falta, um mundo onde o desejo não precisa se articular, onde a divisão subjetiva é anestesiada. Não é o vazio estrutural do sujeito que vemos, mas uma tentativa de tamponá-lo com a duração.
Ozu, ao contrário do que Kiarostami parece supor, nunca eliminou o sujeito. Seus silêncios são cortes, não fusões. Seus planos baixos não contemplam o mundo; eles delimitam lugares simbólicos: pai, mãe, filho, perda, passagem do tempo. Em Ozu, o silêncio não apaga o conflito — ele o torna ainda mais cruel. Em Five, o conflito simplesmente não existe. E isso, do ponto de vista lacaniano, não é elevação ética, mas recusa do desejo.
O filme funciona como um exercício extremo do discurso universitário tardio: tudo é observação, nada é implicação. A câmera se coloca como um olhar sem desejo, como se fosse possível olhar o mundo sem ser olhado por ele. Mas Lacan é claro: não existe olhar sem objeto a. O olhar sempre envolve gozo. Em Five, esse gozo se desloca para a posição do espectador-cinéfilo, que desfruta da própria renúncia, que goza do “não querer nada”.
Aqui reside o ponto mais radical da crítica: Five Dedicated to Ozu não é um filme ascético, mas um filme superegóico. Ele exige do espectador uma pureza impossível: suportar o tempo, aceitar o vazio, abdicar do sentido. O espectador que não “aguenta” o filme é implicitamente culpabilizado, acusado de impaciência, de vulgaridade, de apego à narrativa. Esse é o gozo do supereu contemporâneo: “Seja simples, seja calmo, não deseje demais.”
Lacan, porém, nunca defendeu a purificação do desejo. A ética da psicanálise não é a do silêncio absoluto, mas a do bem-dizer da falta. Onde Kiarostami busca apagar o sujeito, Lacan insiste: o sujeito aparece justamente quando algo falha, quando algo corta, quando algo não se encaixa. Five evita o corte. Ele prefere a continuidade hipnótica do tempo natural. Mas a natureza, em Lacan, não é refúgio — é fantasia.
Assim, o gesto de dedicar o filme a Ozu se torna ambíguo. Não se trata de uma homenagem, mas de uma idealização. Kiarostami transforma Ozu em um nome-do-pai pacificador, esvaziado de conflito, quando Ozu foi, na verdade, um cineasta da perda, da renúncia dolorosa, da impossibilidade de retorno. Five não sustenta essa dor. Ele a dissolve numa superfície bela e indiferente.
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