O Garoto Selvagem, de François Truffaut, é um dos filmes mais perturbadores já feitos porque ele encena, com delicadeza quase clínica, aquilo que Lacan chamou de violência estrutural da linguagem. Não há aqui redenção, nem progresso, nem humanismo reconfortante. O que o filme mostra é que tornar-se humano é entrar num regime de perda irreversível.
Victor, o menino selvagem, não é inicialmente um “sujeito”. Ele está fora do simbólico. Vive num regime próximo do que Lacan chamaria de real não recortado, onde não há falta, porque ainda não há significante que a produza. O garoto não é “livre” no sentido romântico; ele é, mais radicalmente, não dividido. Ele não se reconhece, não se nomeia, não se vê. Ele simplesmente está.
É nesse ponto que o filme começa a ser cruel: quando surge o projeto de salvá-lo.
O médico Itard — interpretado pelo próprio Truffaut — encarna a figura do Outro pedagógico, aquele que acredita saber o que é um humano e que se sente autorizado a conduzir o corpo do outro até esse ideal. Lacanianamente, Itard é o agente da entrada forçada no campo do Outro, o operador da castração simbólica. Ele não tortura Victor, mas o submete a algo mais profundo: a inscrição na linguagem.
Aprender a falar, a nomear, a obedecer, a reconhecer o olhar do outro — tudo isso aparece como avanço. Mas Lacan nos ensina que todo avanço simbólico é também uma perda de gozo. O que Victor perde não é apenas a animalidade; ele perde a possibilidade de uma relação direta com o real. Ele passa a existir sob a forma do sujeito barrado ($).
O filme é radical porque não esconde esse preço. Cada conquista pedagógica é acompanhada por um empobrecimento do corpo. O menino aprende a responder, mas já não habita o mundo com a mesma intensidade. O gesto espontâneo cede lugar à conduta correta. O corpo vivo se transforma em corpo educado. O gozo é substituído pelo sentido.
Do ponto de vista lacaniano, o verdadeiro trauma do filme não é a vida selvagem, mas a normalização. O trauma é a linguagem. Victor não entra no simbólico por desejo; ele é empurrado para dentro dele. E aqui está o ponto mais violento: o desejo que organiza sua educação não é o dele, mas o do Outro. Victor torna-se objeto do desejo pedagógico, científico e moral de Itard. Ele é tratado como aquilo que Lacan chamaria de objeto a: algo a ser moldado, corrigido, completado.
Truffaut é implacável ao se colocar dentro dessa posição. Ao interpretar Itard, ele confessa que o cinema, a pedagogia e o humanismo pertencem à mesma lógica: todos querem dar forma ao indizível. O filme, então, não acusa apenas a escola ou a ciência, mas o próprio gesto de representar, compreender e ensinar.
O final do filme é decisivo justamente porque não oferece síntese. Victor não retorna à floresta, mas também não se integra plenamente. Ele permanece num entre-lugar, um resto. Lacan diria: ele encarna aquilo que nunca se deixa simbolizar completamente. O filme termina sem triunfo porque não há triunfo possível na entrada no simbólico. Há apenas adaptação.
A crítica lacaniana mais brutal que O Garoto Selvagem nos impõe é esta:
não existe humanização sem violência, e não existe linguagem sem mutilação do real. A civilização não é o contrário da barbárie; ela é sua forma mais sofisticada.
Truffaut, ao filmar esse processo sem música redentora, sem lição moral e sem catarse, realiza um gesto raro: ele mostra que ser humano não é uma conquista, mas uma ferida organizada. E que talvez a pergunta mais insuportável não seja “como educar?”, mas esta:
quem autorizou o Outro a nos chamar de humanos?
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