Bataille lendo Nietzsche: o gozo elevado a filosofia e o erro estrutural
No livro em que Georges Bataille se confronta com Nietzsche, não encontramos uma leitura filosófica no sentido rigoroso, mas uma apropriação libidinal. Bataille não lê Nietzsche: ele o goza. E é exatamente aí que, do ponto de vista lacaniano, reside tanto a força quanto o limite radical dessa obra.
Bataille toma Nietzsche como o pensador do excesso, da transgressão, da soberania que se exerce fora da utilidade, fora da Lei, fora do cálculo. Mas ao fazer isso, ele desloca Nietzsche do campo do trágico do desejo para o campo do gozo absoluto, transformando o pensamento em experiência-limite. Para Lacan, esse gesto é profundamente problemático: ele confunde o ponto em que a Lei falha com a fantasia de um além da Lei.
Nietzsche, em sua radicalidade, não propõe a dissolução da estrutura simbólica; ele anuncia sua implosão interna. Quando diz que Deus está morto, ele não abre o caminho para o excesso soberano, mas para a responsabilidade insuportável de um mundo sem garantias. Bataille, ao contrário, lê essa morte como autorização para um gozo sem resto, como se o colapso do Nome-do-Pai abrisse diretamente para a soberania do corpo, da violência, do erotismo, do sacrifício.
É aqui que Lacan introduziria sua crítica mais dura: não existe gozo fora da Lei. O gozo não é libertação; é aquilo que surge precisamente como efeito da interdição. Ao tentar pensar um gozo soberano, Bataille permanece preso à fantasia neurótica de que haveria um ponto onde o sujeito poderia escapar da castração. O excesso batailleano não rompe com a estrutura: ele a hipertrofia.
Bataille transforma Nietzsche em um santo do impossível, um mártir do excesso. Mas Nietzsche não é o pensador do gozo; é o pensador do eterno retorno do mesmo, isto é, da repetição sem redenção. O trágico nietzschiano não promete êxtase, mas exige a pergunta mais cruel: você desejaria isso de novo? Bataille responde com a embriaguez; Nietzsche responde com o peso.
Do ponto de vista lacaniano, o erro decisivo de Bataille está em confundir o Real com o gozo. O Real não é aquilo que se vive intensamente; é aquilo que não se vive, aquilo que retorna como impossibilidade, como trauma, como repetição opaca. Ao estetizar o Real como experiência extrema, Bataille o recobre com uma nova fantasia — uma fantasia de soberania.
Assim, o livro de Bataille sobre Nietzsche é menos uma interpretação do filósofo do martelo e mais um sintoma do próprio Bataille: a tentativa de sustentar o impossível não como furo estrutural, mas como experiência plena. Para Lacan, isso não é radicalidade — é recusa da castração travestida de coragem.
Nietzsche desvela o abismo.
Bataille quer habitá-lo.
E é exatamente aí que a psicanálise intervém para lembrar:
o abismo não se habita — ele estrutura.
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