A afirmação sem Outro: a violência superegóica de Zaratustra
A lição fundamental de Assim Falou Zaratustra pode ser formulada de modo direto: não há fundamento último para a vida e, mesmo assim, o sujeito deve dizer “sim”. À primeira vista, trata-se de um gesto de extrema coragem filosófica, a recusa de toda garantia transcendente e a aceitação plena da existência tal como ela se apresenta. No entanto, quando essa lição é submetida ao crivo lacaniano, o que aparece não é uma ética da liberdade, mas uma nova forma de coerção, mais sutil e mais cruel, porque não reconhecida como tal.
Para Lacan, a inexistência do Outro não conduz automaticamente à emancipação do sujeito. O Outro pode não existir, mas sua função permanece operante. Zaratustra anuncia a morte de Deus e exige que o homem afirme a vida sem apoio algum, mas, ao fazer isso, ele não desmonta a estrutura do Outro: ele a reinscreve na forma de um imperativo absoluto de afirmação. O “dizer sim” torna-se uma ordem. E toda ordem que se apresenta como libertadora é, para a psicanálise, suspeita.
A exigência de afirmar a vida tal como ela é não leva em conta o ponto central da ética lacaniana: o sujeito é estruturalmente dividido. O desejo nasce da falta, não da plenitude. Ao exigir uma afirmação integral da existência, Zaratustra não reconhece essa divisão; ele a nega. O sujeito é convocado a coincidir consigo mesmo, a assumir a totalidade de sua vida sem resto, sem falha, sem negatividade. Trata-se de uma fantasia impossível, pois o sujeito do inconsciente nunca é idêntico a si. A lição de Zaratustra, longe de libertar, impõe um ideal inatingível.
O eterno retorno explicita de modo brutal essa violência. Não se trata apenas de aceitar a repetição da vida, mas de desejá-la infinitamente. Aqui, a afirmação se converte em comando superegóico: goza da tua vida como se tivesses que repeti-la eternamente. Lacan é claro ao mostrar que o supereu não proíbe, ele ordena: “Goza!”. O eterno retorno funciona exatamente assim. Ele não libera o desejo, ele o captura numa exigência absoluta de gozo, produzindo culpa e exaustão onde prometia força.
Além disso, ao abolir qualquer instância de mediação simbólica, Zaratustra expõe o sujeito diretamente ao Real. Mas o Real, em Lacan, não é o campo da vitalidade afirmativa; é o impossível, aquilo que não se suporta. A vida sem garantias não é um convite heroico, é uma confrontação com o furo estrutural do sentido. Zaratustra, no entanto, não sustenta esse furo. Ele o recobre com imagens, metáforas e exortações poéticas, transformando o insuportável em discurso entusiasmado.
A lição fundamental de Assim Falou Zaratustra revela, assim, sua ambiguidade radical. Ao proclamar a necessidade de afirmar a vida sem Outro, Nietzsche parece antecipar a ética da responsabilidade absoluta. Mas, sob a leitura lacaniana, essa afirmação se revela como uma nova tirania: a tirania de um sujeito obrigado a ser inteiro, forte, afirmativo, sem direito à falha. O “sim” incondicional à vida não é liberdade, é coerção disfarçada de coragem.
Lacan responderia com uma recusa silenciosa. Não se trata de dizer “sim” ou “não” à vida, mas de sustentar a falta que a atravessa. A ética não está na afirmação total, mas na não-cedência quanto ao desejo, que inclui a impossibilidade, o tropeço e o limite. A lição de Zaratustra, levada ao extremo, não liberta o sujeito do niilismo; ela o obriga a sorrir diante dele. E é justamente aí que reside sua violência mais profunda.
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